
Em tempos de inteligência artificial, muito se tem discutido sobre os riscos associados ao uso de materiais produzidos com apoio dessa tecnologia — especialmente quando carregam vieses que, muitas vezes de forma sutil, influenciam as escolhas pedagógicas feitas em sala de aula.
Mas, afinal, o que é “viés”? Trata-se de uma tendência sistemática que distorce o julgamento, a percepção ou os resultados de maneira parcial ou injusta. Esse desvio pode surgir a partir de pressupostos implícitos, experiências passadas, dados limitados ou preferências não explicitadas no processo de produção de conteúdo — como é comum em sistemas baseados em IA.
Recentemente, um artigo que circulou pelas minhas redes sociais provocou importantes reflexões. O texto evidencia, com clareza, a presença de viés pedagógico em ferramentas de inteligência artificial voltadas à educação, ao mostrar como elas reproduzem concepções tradicionais e centradas no professor. Ao gerar planos de aula com foco em instrução direta, atividades mecânicas e com pouca abertura para escolhas dos estudantes ou diálogo em sala de aula, essas ferramentas reforçam uma visão limitada de aprendizagem, que trata o estudante como mero receptor de informações. Esse viés, longe de ser inofensivo, impacta negativamente a experiência educacional ao restringir o desenvolvimento de competências como autonomia, pensamento crítico, criatividade e colaboração. Em vez de promover inovação, essas ferramentas podem cristalizar práticas ultrapassadas, comprometendo o potencial transformador que a educação e a tecnologia deveriam construir em conjunto. Sem um olhar atento e crítico, os prejuízos podem ser profundos e duradouros.
O que essa reflexão traz a toma é a necessidade urgente de aprofundarmos a formação docente que, atualmente, tem incluído o uso de recursos com IA na geração de planos de aula, como apoio para a prática diária em sala de aula. Como pesquisadora que tem realizado ações formativas comprometidas com implementação de metodologias ativas em sala de aula, entendo que esses vieses — frequentemente centrados em práticas transmissivas e pouco dialógicas — reforçam uma visão ultrapassada de ensino, que vai na contramão de uma educação que valoriza o protagonismo dos estudantes, a autonomia e a aprendizagem significativa. A formação de professores, nesse contexto, deve ir além do domínio técnico: é preciso desenvolver uma consciência crítica sobre as implicações pedagógicas do uso das tecnologias digitais, para que os educadores possam atuar como curadores e mediadores, adaptando recursos às necessidades reais dos estudantes.
A inovação tecnológica, quando conduzida com intencionalidade e senso crítico, pode — e deve — estar a serviço de uma educação transformadora, centrada no estudante e fundamentada em princípios de equidade, colaboração e desenvolvimento integral. E é o professor, bem preparado e consciente desses desafios, quem pode garantir que esse caminho seja possível.
Para saber mais: Chen, B., Cheng, J., Wang, C., & Leung, V. (2025, in press). Pedagogical biases in AI-powered educational tools: The case of lesson plan generators. The Social Innovations Journal.
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