Ensino Híbrido em ação: a sala de aula invertida

Ensino Híbrido: colocando o estudante no centro do processo

Ensino Híbrido não é uma metodologia, identifiquei, na minha tese, como uma abordagem. Nesta abordagem, em que o online e o presencial se complementam, considerando o estudante no centro do processo, várias metodologias podem ser utilizadas. A sala de aula invertida é uma delas.

A sala de aula invertida não é uma metodologia exclusiva do Ensino Híbrido. Podemos verificar vários autores que já trataram dessa proposta (entre eles, Bergmann) antes dela ser incluída como uma das possibilidades de conectar o online e o presencial com o foco nas aprendizagens dos estudantes. É muito comum ouvir dos professores: “Eu já usava sala de aula invertida e nem sabia”. Muitos deles, usavam mesmo. Outros, passavam uma tarefa de casa, ou uma leitura anterior à aula, e, assim, pensam que já utilizavam essa metodologia. Mas, não é bem isso… Vamos tentar alinhar esse conceito?

A sala de aula invertida e a Taxonomia de Bloom

Utilizando a Taxonomia de Bloom como referência, veja como podemos esclarecer melhor o papel da sala de aula invertida. Na sala de aula “tradicional”, é comum, durante a aula, o trabalho com os níveis inferiores da taxonomia de Bloom (recordar e entender), deixando para casa as atividades que envolvem processos cognitivos superiores (aplicar, analisar, avaliar e criar). Na sala de aula invertida, acontece o contrário: o tempo durante a aula é usado para explorar esses processos cognitivos mais complexos. De acordo com Bergmann (2018), não basta somente inverter a pirâmide, é necessário um enfoque maior na aplicação e na análise dos conceitos, o que ele nomeia por modelo de diamante da taxonomia de Bloom, supondo que a área maior da pirâmide representa um maior tempo em sala de aula dedicado àquele nível, ou seja, para a aplicação e para a análise.

Sala de aula invertida e a Taxonomia de Bloom (BERGMANN, 2018)

Assim, enviar uma tarefa para os alunos realizarem em casa e corrigi-la na sala de aula não é o que a sala de aula invertida considera no modelo diamante da taxonomia, nem, tampouco, pedir para o estudante ler um texto em casa para que o professor explique aquele conteúdo a partir do que eles entenderam do texto.

Sala de aula invertida no Ensino Híbrido

Vamos analisar como esse olhar para os processos cognitivos ocorre na prática, considerando o Ensino Híbrido? Veja este exemplo:

Sala de aula invertida e rotação por estações.

Neste planejamento, é possível considerar estudantes que estão em casa e que estão na escola fazendo parte do mesmo grupo e se comunicando por meio dos dispositivos móveis, no caso desta disponibilidade na instituição de ensino, é possível considerar grupos de trabalho que ocorrem virtualmente e outros presencialmente, mas todos passam pelas mesmas propostas, como sugeri neste texto.

Você consegue identificar outras possibilidades? Compartilhe nos comentários caso tenha utilizado esse modelo em suas aulas! Em março, teremos um curso específico para tratar do planejamento e da avaliação de aulas que consideram o Ensino Híbrido e, caso tenha interesse, inscreva-se aqui.

TPACK: refletindo sobre o uso de recursos digitais

Selecionar os melhores recursos digitais a serem utilizados em sala de aula precisam ir além da generalização de que qualquer recurso será útil em qualquer situação de aprendizagem. Temos estudado sobre diferentes modelos de identificação dos melhores recursos e um deles é a reflexão sobre os estudos que apresentam o modelo TPACK. Selecionei um trecho da minha tese, a seguir, em que abordo esse modelo.

[…]

Outros estudos analisaram processos de integração das tecnologias às práticas pedagógicas (Mishra & Koehler, 2006; Puentedura, 2012). O modelo TPACK, por exemplo, valoriza as relações entre o conteúdo a ser ensinado e aprendido, o aspecto pedagógico, ou seja, a metodologia que norteará o processo ensino e aprendizagem, e a tecnologia que estará envolvida nele. Para os autores (Mishra & Koehler, 2006), a intersecção entre conteúdo, metodologia e tecnologia é um aspecto central a ser analisado nos processos de formação docente e

Outros estudos analisaram processos de integração das tecnologias às práticas pedagógicas (Mishra & Koehler, 2006; Puentedura, 2012). O modelo TPCK, por exemplo, valoriza as relações entre o conteúdo a ser ensinado e aprendido, o aspecto pedagógico, ou seja, a metodologia que norteará o processo ensino e aprendizagem, e a tecnologia que estará envolvida nele. Para os autores (Mishra & Koehler, 2006), a intersecção entre conteúdo, metodologia e tecnologia é um aspecto central a ser analisado nos processos de formação docente e reforçam que o conhecimento da tecnologia não pode ser isolado do conhecimento da metodologia e do conteúdo.

Pedagogical Technological Content Knowledge. Fonte: Mishra & Koehler, 2006, p.1025

Na figura que ilustra o modelo TPCK, é possível identificar a combinação entre esses conhecimentos. Os autores reforçam a importância das intersecções entre eles. Conhecer o conteúdo a ser ensinado é importante, porém, identificar as melhores formas de um estudante aprender esse conteúdo selecionando a metodologia mais adequada é essencial, o que é indicado na intersecção entre C (conteúdo) e P (pedagogia = metodologia). Conhecer os recursos tecnológicos e saber como utilizá-los é insuficiente se não houver uma associação com a metodologia mais adequada e das relações eficientes entre os recursos e os conteúdos, o que é indicado na intersecção T (tecnologia) e P, e na intersecção T e C. A relevância dessa composição para o processo ensino e aprendizagem será evidente ao cruzarmos todos esses conhecimentos: TPC.

O papel do professor, ao fazer uso das tecnologias digitais, baseado nos objetivos de aprendizagem que pretende atingir, supõe, portanto, uma análise da abordagem pedagógica mais adequada a ser utilizada.

Como afirmam Coll e Monereo (2010, p. 31), “A imagem de um professor transmissor de informação, protagonista central das trocas entre seus alunos e guardião do currículo começa a entrar em crise em um mundo conectado por telas de computador”.

Nesse aspecto, a condução da aula, em que o estudante está no centro do processo, tem maior aderência a esse propósito do que o modelo de “palestra” em que o professor expõe o mesmo conteúdo, a todos os estudantes, ao mesmo tempo e da mesma forma. Como afirma Almeida (2005), a configuração dos papéis do professor e do aluno em métodos ativos de aprendizagem associados às tecnologias digitais possibilita a reflexão sobre as teorias pedagógicas e sua associação com as práticas em sala de aula.

Quando refletimos sobre a forma que os estudantes podem fazer uso das tecnologias digitais como fonte de informações e construção de conhecimentos, é importante a reflexão sobre o que é solicitado deles como tarefas de aprendizagem. As propostas feitas pelos professores devem ser objeto de reflexão para esses estudantes. Por exemplo, a busca de informações e o resultado dessa busca, em uma sociedade digital, habitada por um grande número de nativos digitais que frequentam nossas escolas, é algo que ocorre de uma forma cada vez mais interativa e em uma velocidade muito maior do que a estrutura atual de nossas escolas consegue assimilar. Copiar e colar as informações obtidas no primeiro site que é apresentado ao aluno em uma ferramenta de busca, como o Google, é uma atitude corriqueira em atividades de pesquisa realizada por alunos de qualquer faixa etária. Ao buscar informações, o aluno deve aprender a procurar sites confiáveis e, principalmente, a verificar, de forma crítica, o conteúdo por eles apresentado. Por outro lado, se a proposta de pesquisa, feita pelo professor, limitar-se a um levantamento de dados, todos os sites apresentarão respostas semelhantes e copiar e colar será a melhor forma de realizar a tarefa proposta. O professor deve, então, propor atividades que busquem uma comparação, uma postura reflexiva ou, ainda, a utilização de informações pessoais, decorrentes do que foi trabalhado em sala de aula, para resolver a questão. Assim, pesquisar sobre a descoberta da vacina e sua utilização é um tipo de proposta em que a resposta será encontrada em muitos sites. Mas, relacionar a importância das vacinas com os impactos em sua saúde, comparando as carteirinhas de vacinação dos colegas com as vacinas que devem ser tomadas em cada faixa etária, entre outras possibilidades, torna única a resposta e, dessa forma, não será encontrada uma pesquisa pronta sobre o assunto. A busca de informações toma, então, outras proporções, outros caminhos, outras formas. […]

Espero que essas reflexões, trecho da minha tese, defendida em 2016 e que pode ser acessada no banco de teses da USP e cuja referência segue abaixo, sejam úteis. Em nossos cursos, na Tríade Educacional, temos abordado outros modelos para escolhas de recursos digitais e, futuramente, compartilharei por aqui.

Martins, Lilian C. Bacich.(2016). Implicações da organização da atividade didática com uso de tecnologias digitais na formação de conceitos em uma proposta de Ensino Híbrido. 317f. Tese (Doutorado em Psicologia) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo. p.57-59

Ensino Híbrido ≠ Transmissão de aula: como aprimorar a experiência se transmitir aulas é sua opção?

Fonte> Pixabay

Repetidamente tenho afirmado, em palestras, formações e outros espaços: transmissão de aula presencial não se apoia nas referências que utilizo para definir ensino híbrido. Sabemos que muitas instituições, apoiadas no que viveram no período remoto, com foco nas aulas síncronas, pressionadas, muitas vezes, pelas famílias, entrando em contato com exemplos divulgados pela mídia, ou por empresas que comercializam equipamentos e, principalmente, por uma impressão de que essa seria a melhor escolha para atender a todos os estudantes, optaram pela transmissão das aulas presenciais. Erroneamente, essa transmissão vem sendo definida como ensino híbrido, provocando preocupação, revolta e, até mesmo, expondo a dificuldade de professores e instituições em tirarem o melhor proveito dessa ação, pois não se identifica o papel do espaço online e o papel do espaço presencial como meios diferentes de construção de conhecimento.

Em textos anteriores (como neste) aqui do blog eu já apontei os motivos para não confundirmos uma coisa com a outra e, neste, gostaria de começar a fazer um movimento diferente… Sabemos bem que não adianta um feedback que não ofereça caminhos para aprimorar e é este o propósito: oferecer opções para que a transmissão da aula fique em segundo plano e que o ensino híbrido, com foco na personalização e no uso das tecnologias digitais para a aprendizagem assuma o papel principal.

Apresentei alguns desafios da aula simultânea, ou transmissão de aula presencial, neste texto e apresento, a seguir, uma possibilidade para que o ensino híbrido apoie na solução deste desafio.

Atenção do professor aos estudantes

Sabemos bem que em uma aula simultânea é muito difícil manter a mesma qualidade de atenção para quem está presencialmente e quem está online. Então, o primeiro desafio é tirar o “simultâneo” do planejamento. Se organizarmos estações de trabalho: estação professor, estação trabalho individual, estação trabalho em grupo conseguimos variar as experiências de aprendizagem, trabalhar com grupos menores e realmente identificar as necessidades e facilidades dos estudantes, apoiando a identificação de onde os estudantes estão, em relação às aprendizagens, e onde precisam chegar.

Veja como funciona a rotação por estações na prática:

Imagine que o professor tenha organizado 3 estações de trabalho> estação individual, estação grupo, estação professor. Em cada estação há uma etapa de trabalho, com propostas que valorizam o desenvolvimento de habilidades e todas elas produzem evidências da aprendizagem.

E, neste modelo, como o professor organiza essas ações em grupo para quem está online? Veja uma sugestão.

Vejam que elas são concomitantes e podem ser organizadas para que o professor não precise ficar com microfone (headset), nem ter microfones pra capturar as vozes dos estudantes, garantindo privacidade a todos! A princípio pode parecer um trabalho maior do professor e sabemos que não é fácil esse tipo de planejamento, porém, em longo prazo, as aulas simultâneas podem apresentar mais desgaste do que esse tipo de organização que é mais metodológica do que tecnológica.

Então, é esse o propósito deste texto e, se gostarem dele, ou já realizaram algo semelhante (espero que os professores incríveis que já passaram por nossos cursos tenham se inspirado nessas soluções) avisem por aqui! Muita força aos professores para lidarem com esses novos desafios e bom trabalho a todos!!

Ensino Híbrido: reflexões sobre a etapa online

No Ensino Híbrido, consideramos que a interação dos estudantes com os recursos digitais, que são possibilidades de geração de dados sobre as aprendizagens autônomas, individuais ou em grupo, sejam alinhadas com as interações face a face, no espaço físico da instituição de ensino. Ao refletir sobre o apoio que é possível oferecer aos estudantes para avançar em relação ao desenvolvimento da autonomia, encontrei uma reflexão produzida pelos professores Jonathan Bergmann e Dan Jones sobre processos cognitivos (apoiados na Taxonomia de Bloom) e os níveis de suporte necessários de acordo com o tipo de interação (síncrona e assíncrona).

Vamos refletir sobre essa representação.

BERGMANN, J. e JONES, D. Providing Ideal Support For Students in Remote Learning, 2021. (tradução nossa, com autorização dos autores)

Os processos cognitivos, desde os mais simples aos mais complexos, da memorização à criação, podem ser trabalhados no formato assíncrono ou no formato síncrono, quando tratamos do ensino remoto. No Ensino Híbrido, por sua vez, poderíamos substituir o síncrono pelos momentos presenciais em sala de aula. O quadro é interessante ao apresentar que, para os processos cognitivos mais simples, como memorização e compreensão, é possível pensar em menos suporte aos estudantes, ou seja, um trabalho individual e mais independente e que depende menos da intervenção do professor, enquanto que, quando pensamos em desenvolver processos mais complexos, como análise, avaliação e criação, temos uma possibilidade de ter trabalhos em grupo mais efetivos e, pela complexidade dos processos, envolver um maior suporte do educador.

Ao realizar essa análise e refletir sobre o Ensino Híbrido, quando a presença dos estudantes no espaço físico se torna possível, investir o suporte do professor para promover as interações (com os devidos cuidados sanitários) torna-se um melhor emprego do tempo presencial do que investi-lo nas atividades que requeiram memorização ou compreensão, frequentes quando temos a exposição de um conteúdo. As explicações sobre um conteúdo em que se espera a compreensão de informações, e não a aplicação para produzir conhecimentos podem ser, então, melhor exploradas nos momentos assíncronos quando o estudante está em casa.

A imagem levou-me a várias reflexões importantes e espero que tenha provocado o mesmo em você, leitor! Em nossos cursos deste semestre, incluímos esses pontos no debate e vamos explorar essas questões em diferentes perspectivas: gamificação, avaliação, personalização, recursos, entre outras temáticas.

Implementação do Ensino Híbrido: o que considerar?

Fonte: Disponível no Ebook da Tríade Educacional

Ensino híbrido é uma abordagem que considera a interação entre o que é realizado online (ou remotamente) e o que é realizado em uma relação face a face com o educador, no espaço físico da escola. Essa interação, mais do que unir atividades remotas e presenciais, tem como foco a personalização e, para isso, considera o estudante no centro do processo.

Reforçar essa definição apoia a escolha de estratégias que considerem pedagogigamente a implementação do Ensino Híbrido. O que está por trás dessa implementação é o olhar para o quanto podemos avançar migrando de uma proposta centrada no professor, em que é ele o responsável por “transmitir” informações, lógica do século XX, em que a escola era o local em que era possível obter informações, além das enciclopédias e dos livros na biblioteca, para uma lógica do século XXI, em que a escola é o local para a construção coletiva de conhecimentos e onde é possível o desenvolvimentos de processos cognitivos mais complexos.

Assim, este momento que estamos vivendo, em uma migração do remoto para o híbrido, poderá apoiar um processo que considere os estudantes como protagonistas e que possibilite o desenvolvimento da autonomia, principalmente de estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental, do Ensino Médio e, obviamente, do Ensino Superior.

Para aprofundar essas reflexões, baseados em pesquisas e nossos estudos sobre o Ensino Híbrido, desenvolvemos um ebook com algumas sugestões que podem ser consideradas nessa implementação, principalmente para apoiar a formação continuada de professores. Para baixar o ebook, é só acessar o formulário disponível aqui. Esperamos que seja útil!

“NO ENSINO HÍBRIDO, O ON-LINE POTENCIALIZA O MOMENTO PRESENCIAL”, EXPLICA LILIAN BACICH

Abaixo, trecho de entrevista publicada no site do Instituto Unibanco.

O que é o ensino híbrido?

Lilian: O ensino híbrido é uma abordagem que envolve a conexão entre aquilo que o aluno faz online ou mesmo off-line, mas com o uso de recursos digitais, e aquilo que ele faz presencialmente numa sala de aula física. Quando você combina essas duas experiências de aprendizagem e tem como foco a personalização, aí você está realizando o ensino híbrido com essa proposta de um estudante mais ativo, no centro do processo e de uma avaliação formativa.

Como potencializar os momentos presenciais e on-line?

Além do potencial de estimular a autonomia e o protagonismo do aluno, o on-line também é um meio importante do professor ou da escola coletar informações sobre esse aluno. Por exemplo, se ele fez um mapa mental, o professor já pode a partir desse mapa mental identificar o que ele tem de dificuldade, de facilidade, que tópico ele poderia aprofundar mais. Se ele assistiu a uma videoaula e respondeu a um formulário depois, a escola tem dados quantitativos para saberem o percentual de acertos, o quanto ele apresentou de dúvida. Essas informações potencializam o momento presencial. No ensino híbrido a gente entende que o momento presencial, em que o aluno está face a face com o professor, é o momento para troca, olho no olho, em que o aluno deve estar mais desconectado que conectado, especialmente nesse retorno das escolas, desenvolver a argumentação, o debate, a própria aplicação dos aprendizados que ele trabalhou em casa, aprofundando conhecimentos ou esclarecendo alguma dúvida.

Caso esse aluno não tenha o contato digital na casa dele, que a escola também seja esse espaço para que ele entre em contato com essa cultura digital e possa desenvolver esses desafios on-line na escola também, mas não no mesmo tempo em que ele está com o professor. A gente tem alguns modelos de ensino híbrido que promovem esse revezamento entre o on-line e o face a face com o professor.

A gente tem exemplos de escolas públicas que conseguiram reconfigurar o espaço do laboratório de informática, no sentido de que não tem as mesas enfileiradas, mas espalhadas. E aí você tem um espaço em que os alunos podem trabalhar desconectados com o professor, as vezes numa roda de conversa, ou próximo do laboratório, enquanto que outra parte podem fazer o contato com o digital de uma forma mais individual, principalmente se não teve acesso nesse período em casa. Esse é o modelo chamado de laboratório rotacional, de uso do laboratório de informática.

Com a reabertura parcial e gradual das escolas, como promover a inclusão dos alunos que não têm acesso à internet e aos dispositivos tecnológicos no âmbito do ensino híbrido?

Quando a gente olha para esse modelo do laboratório rotacional, ele é uma estratégia que pode ser muito útil para gente trazer para a cultura digital aqueles alunos que nesse período ou no dia a dia não têm acesso ao digital na casa deles. O Laboratório Rotacional é uma boa experiência para que a gente leve os alunos para o contato digital e ao mesmo tempo tenha a possibilidade de fazer o face a face com o professor e desenvolver outras habilidades.

A gente tem o modelo da sala de aula invertida, em que o aluno se prepara para a aula presencial e nesse se preparar ele pode usar o on-line se ele tiver ou uma mídia social, muitas redes utilizaram o whatsapp, os recursos digitais e outras utilizaram a tevê e o rádio que não se configuram no ensino híbrido mas numa visão ampliada, que é o que a gente vem defendendo, de uma educação híbrida, que pode dar acesso a outros recursos para aqueles que não têm acesso ao digital.

Uma das linguagens que é preciso trabalhar com os alunos nesse século 21 é o acesso à cultura digital. Se ele não teve esse acesso e foi feito algo que cumprisse esse papel por meio de material impresso, TV, a escola não pode se abster dessa possibilidade de quando o aluno voltar a frequentar o espaço físico da escola, é um jeito de lidar com essas desigualdades.

Veja o restante da matéria, clicando aqui.

Ensino híbrido: esclarecendo o conceito

Atualmente, como já comentei em postagens anteriores (A sala de aula “híbrida”; Ensino híbrido), há dúvidas em relação ao conceito de Ensino Híbrido… Reforço que, ao seguirmos um determinado caminho na definição de um termo, é importante nos apoiarmos em referências que nos ajudem nessa definição. Assim, inicio esse texto informando que as fontes que apoiam a definição são autores que nos ajudam a repensar a educação do século XXI, considerando o estudante no centro do processo.

O que significa Ensino Híbrido quando consideramos o estudante no centro do processo?

Ensino Híbrido tem como foco a personalização, considerando que os recursos digitais são meios para que o estudante aprenda, em seu ritmo e tempo, que possa ter um papel protagonista e que, portanto, esteja no centro do processo. Para isso, as experiências desenhadas para o online além de oferecerem possibilidades de interação com os conhecimentos e o desenvolvimento de habilidades, também oferecem evidências de aprendizagem. A partir dessas evidências, nos momentos em que os alunos estão face a face com o professor, presencialmente, em uma sala de aula física, é possível que o professor utilize as evidências coletadas para potencializar a aprendizagem de sua turma.

Para atingir essa proposta, há alguns modelos defendidos por autores que publicaram pesquisas sobre Ensino Híbrido (BACICH, TANZI NETO, TREVISANI, 2015HORN e STAKER, 2015GARRISON e VAUGHAN, 2008) e esses modelos podem ser analisados na imagem a seguir.

Fonte: elaborada pela autora a partir da referência presente na imagem.

De acordo com essa definição, portanto, aulas que acontecem no espaço físico da escola e são transmitidas ao vivo para quem está em casa (modelo HOT) NÃO se incluem na definição de ensino híbrido; aulas que acontecem no modelo remoto, com alunos e professores em suas casas, mesmo que combinando momentos síncronos e assíncronos, NÃO se incluem na definição de ensino híbrido; enriquecer aulas presenciais com um jogo online, ou com a apresentação de um powerpoint NÃO se incluem na definição de ensino híbrido. Esses são alguns exemplos de equívocos que tenho observado… compartilhe nos comentários caso queira trazer mais reflexões sobre o tema: vou adorar ampliar essa conversa! Para aprofundar ainda mais a discussão e o estudo dessas referências, fica o convite para nossos cursos online.

Sabemos que tomar as melhores decisões, neste momento que estamos, não é algo simples, pois há vários fatores envolvidos. Porém, as escolhas a serem feitas devem estar bem embasadas e ter como foco a aprendizagem ativa dos estudantes. Apenas dessa forma conseguiremos desenvolver competências essenciais como pensamento crítico, resolução de problemas, colaboração, comunicação e criatividade!

Como citar? BACICH, Lilian. Ensino híbrido: esclarecendo o conceito. Inovação na educação. São Paulo, 13 de setembro de 2020. Disponível em: https://lilianbacich.com/2020/09/13/ensino-hibrido-esclarecendo-o-conceito/

Presente e distante: pesquisas que abordam a transmissão ao vivo de aulas presenciais

Muito temos ouvido falar sobre transmissão de aulas ao vivo no retorno às aulas presenciais e, em uma breve revisão da literatura, pretendo trazer algumas reflexões neste texto, apresentando as vantagens e desvantagens desse modelo.

O termo HOT instruction (ZYDNEY et al, 2019), em que HOT significa Here or there (aqui ou lá) é um dos termos utilizados para se referir à uma abordagem em que parte dos estudantes acompanha remotamente, de sua casa ou de onde preferir, a aula que ocorre na sala de aula presencial em que o professor palestra (oferece instrução) para a porcentagem de estudantes que está presente face-to-face.

Apesar de parecer recente na educação, como um efeito da reabertura das escolas pós-pandemia, esse modelo já é estudado há algum tempo, especificamente no ensino superior em cursos semi-presenciais, nos cursos em que os estudantes podem fazer a opção de estudar no campus ou em casa. Foram encontrados poucos artigos que se referem a esse modelo na educação básica e, quando relatados, se referem à etapa do ensino médio.

Dos artigos encontrados, dediquei-me neste texto a um deles, presente nas referências, para listar as vantagens e desvantagens desse modelo, que serão apresentadas a seguir e que, se você leu artigos anteriores publicados neste blog, já deve ter se deparado com minhas considerados sobre isso, reforçadas, agora, pela pesquisa que realizei. Vamos a elas:

Vantagens

Há vantagens da HOT instruction, segundo alguns autores, em aspectos organizacionais e pedagógicos. Em relação à organização, há referências da possibilidade de alunos que vivem em outras cidades e, até mesmo em outros países, terem a oportunidade de envolvimento em um curso presencial, mesmo que não consigam frequentá-lo no campus. Outras vantagens organizacionais se referem a algumas disciplinas eletivas, que podem ocorrer em horários alternativos, em relação à carga horária presencial, além de maior liberdade de professores e estudantes para frequentarem o campus quando assim o preferirem. Há relatos de vantagens pedagógicas, para alunos que apresentam alguma necessidade educacional especial em que o deslocamento para o campus e a permanência em um espaço físico poderiam acarretar déficit de aprendizagens e, acompanhar as aulas de sua residência seria vantajoso; evitaria a evasão de estudantes que não pudessem ou tivessem muita dificuldade de chegar ao campus, muitas vezes pela impossibilidade logística de chegar a alguma instituição e, ainda, vantagem se as aulas pudessem contar com o envolvimento de outros profissionais que pudessem participar dos encontros, o que promoveria a troca de ideias e a ampliação de visões sobre os objetos de estudo. Estes aspectos elencados como vantagens parecem, a meu ver, muito bem conectados com a proposta do Centro de Mídias de Educação do Amazonas, em que tive o privilégio de conduzir uma formação de professores em 2016 e que, para poder chegar a todos os municípios, desde 2007 a transmissão das aulas para a educação básica é feita nesse modelo.

Desafios

No aspecto pedagógico, o professor precisa modificar a forma que sempre utilizou para conduzir suas aulas, ao mesmo tempo que precisa adaptar as aulas a esse formato para atender dois espaços diferentes mantendo os mesmos objetivos, dependendo, para isso, de uma alta performance de conhecimentos tecnológicos para que essa adaptação ocorra com qualidade e que favoreça a obtenção de evidências das aprendizagens dos estudantes. Além disso, há uma necessidade de atenção e foco do professor em dois ambientes diferentes, para que atenda às necessidades dos dois grupos de estudantes. As pesquisam falam em desgaste para focar na tela e focar na turma, variando o foco nos dois ambientes. Talvez, ouvir os professores para poder compreender melhor o que eles pensam de situações como essas seria um excelente caminho para tomar decisões.

Ainda no aspecto pedagógico, as pesquisas relatam que o impacto na aprendizagem não é o mesmo e chega a ser reduzido, principalmente, para os que estão no modelo remoto, que vivem uma experiência muito diferente da presencial, mas também é reduzido para quem está no presencial, porque para ser transmitida com exatidão, as orientações do professor devem ser feitas de forma mais pausada do que o habitual e com mais repetições, o que interfere na qualidade dos resultados obtidos presencialmente além de, provavelmente, reforçar a indisciplina. A disciplina da turma, por não ser uma preocupação das pesquisas realizadas antes do período pandêmico e com adultos, não foi um fator considerado, mas considero que é bem possível imaginar os efeitos de alunos que terão mais dificuldades de se manter sentados e em silêncio (!!) em uma situação que exige distanciamento (por outro lado, se é para mantê-los sentados e em silêncio, por que mesmo eles saíram de suas casas?)

Outro ponto apontado pelos estudos é o emocional em que os alunos, que acompanhavam remotamente as aulas, com frequência se sentiam excluídos das propostas presenciais, principalmente quando ocorria uma queda de conexão que poderia demorar para ser solucionada devido às dificuldades de manter um profissional para suporte técnico em cada sala. Esses estudos relatam que esses estudantes sentiam-se negligenciados uma vez que, mesmo com a queda na conexão, a aula tinha continuidade com os alunos que estavam presencialmente no campus. Reforço que estamos falando de adultos nessas pesquisas… como resolver essas questões emocionais com estudantes que já estão sensíveis e vivendo tantos desafios nesse período. Isso, novamente, sem contar a sensação de frustração dos professores em não conseguirem lidar com esses desafios.

Por fim, apesar do artigo ir longe nas reflexões, há o relato de queda de resultados de aprendizagem apresentados nas avaliações dos alunos que estão no modelo remoto, além de desmotivação, sendo sua atenção comparada à mesma que dispendem ao assistir TV, pois as aulas tinham uma tendência de ser preferencialmente expositivas. Por questões tecnológicas, foi relatado que o professor deveria evitar mudar seu posicionamento durante a aula e encontrar um ponto da sala em que conseguisse focar na câmera e nos alunos que estivessem presentes no espaço da sala de aula, além de ter um cuidado especial com o áudio, para que todos pudessem ouvi-lo em um tom de voz adequado, pois ao falar mais alto para ser ouvido pelo aluno que está mais ao fundo da sala, uma vez que ele não deveria se mover de um mesmo ponto, estaria produzindo um som muito alto para os alunos que estão em casa…

Muito importante discutirmos soluções para que a abordagem do Ensino Híbrido que venho defendendo em minhas pesquisas possa funcionar de um modo a garantir não só aprendizagens como engajamento. Que tal pensarmos nos momentos presenciais para a realização de projetos? Seria um excelente momento para trabalhar de forma interdisciplinar e flexível, considerando a atividade dos estudantes que, no período remoto, estariam dedicados às pesquisas e desenvolvimento de propostas a serem aplicadas presencialmente. Em que o professor, desconectado, pudesse estar com sua atenção toda voltada para a sala de aula e para que todos trabalhem, juntos, a série de questões que precisa ser considerada nesse retorno. Em que, dentro do horário do professor, ou dos professores que não retornarem para o presencial, seja possível uma atenção focada aos alunos que estão em casa. Vamos nos esforçar para avançar para o século XXI e não retroceder para uma mentalidade apoiada em uma “educação bancária”.

Referência: RAES, Annelies, et al. Learning and instruction in the hybrid virtual classroom: An investigation of students’ engagement and the effect of quizzes. Computers & Education, 2020, 143: 103682.

Recado: Para você, participante dos cursos da Tríade que foi direcionado para este texto, discutiremos esse tema em nosso encontro síncrono.

E, pra finalizar, o título deste texto é uma provocação: a reflexão sobre presença e distância vai muito além do que consideramos no senso comum…Veja mais sobre isso na excelente explanação do prof Romero Tori.

Como citar este texto? BACICH, Lilian. Presente e distante: pesquisas que abordam a transmissão de aulas presenciais. Inovação na educação. São Paulo, 21 de agosto de 2020. Disponível em: https://lilianbacich.com/2020/08/21/presente-e-distante-pesquisas-que-abordam-a-transmissao-de-aulas-presenciais/ . Acesso em…..

Como citar um texto deste blog?

Você sabia que é possível citar textos de blog para dar créditos às leituras que você faz?

Usualmente, tenho recebido questionamentos referentes ao uso dos textos que produzo aqui no blog e, para facilitar as informações, a partir das próximas postagens, já indicarei como citar o texto. Para as postagens anteriores, segue uma breve orientação com um exemplo de como fazer:

ÚLTIMO SOBRENOME DO AUTOR, Nome do autor. Título do post. Nome do blog. Cidade, dia do post, mês do post, ano do post (você acha estes dados no finalzinho de cada post). Disponível em: (copiar e colar o site). Acesso em (coloque aqui a data em que você acessou)

Veja um exemplo:

BACICH, Lilian. WebQuest: como organizar uma atividade significativa de pesquisa. Inovação na educação. São Paulo, 22 de março de 2020. Disponível em: https://lilianbacich.com/2020/03/22/webquest-como-organizar-uma-atividade-significativa-de-pesquisa/ Acesso em: 20 de agosto de 2020.

Prontinho! Em tempos de publicações virtuais, muitas informações acabam não recebendo os créditos de autoria e é sempre importante lembrar que qualquer publicação envolve muito estudo e tempo de dedicação de quem a escreveu.

Aproveitando, se quiser saber mais informações sobre como fazer postagens a partir de publicações feitas online, veja o texto que utilizei como fonte:

Recursos virtuais. Disponível em: https://normas-abnt.espm.br/index.php?title=Recursos_virtuais Acesso em 20 de agosto de 2020.

A sala de aula “híbrida”

Híbrido: mistura de elementos

Muito temos ouvido e lido sobre o desafio do retorno às aulas presenciais. Mesmo sem ter certeza de quando ele ocorrerá em muitos locais, é essencial termos clareza sobre o que significará essa “sala de aula híbrida”, principalmente para fazer valer tudo o que temos estudado, nos últimos anos, sobre a aprendizagem e, em especial, sobre a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) e as competências e habilidades que são cada vez mais necessárias neste nosso século.

Híbrido, na proposta do Ensino Híbrido defendida por alguns autores (BACICH, TANZI NETO, TREVISANI, 2015; HORN e STAKER, 2015; GARRISON e VAUGHAN, 2008), baseia-se na definição do blended learning que considera a complementação entre o ensino online, ou mediado por tecnologias digitais, e o ensino presencial, face a face, de modo a obter o “melhor dos dois mundos”. Não se trata de ter a mesma experiência acontecendo online e presencialmente. Podemos encontrar, na definição de Ensino Híbrido, o estudante no centro do processo, o professor com o papel mediador, a tecnologia como um suporte que possibilita o protagonismo dos estudantes e o desenvolvimento da cultura digital.

No Ensino Híbrido, o estudante está no centro do processo e participa de experiências de aprendizagem onde tem oportunidade de debater, argumentar, desenvolver o pensamento crítico e a resolução de problemas. Essas experiências podem ocorrer no momento online, mas são melhor aproveitadas no momento face a face, olho no olho.

O professor não é o centro do processo no Ensino Híbrido. Ele é aquele que estabelece a mediação entre os estudantes e os objetos de conhecimento, desenhando experiências que podem contar, eventualmente, com a explicação de um conteúdo, mas não é só esse seu papel. Seria muito pouco reduzir a aprendizagem a uma mera exposição de um conteúdo. Professores são profissionais com uma formação que os capacita para oferecer experiências de aprendizagem diversas que envolvem os estudantes com habilidades e competências que precisam desenvolver e não é apenas a aula expositiva que tem essa função.

As tecnologias oferecem oportunidade dos alunos produzirem conhecimentos a partir das experiências que foram desenhadas especificamente para esse ambiente. Eventualmente, pode considerar o digital como um recurso para a exposição de algum conteúdo, mas as tecnologias digitais precisam ir além desse papel, oferecendo também possibilidade de interação e acompanhamento das aprendizagens individuais ou em pequenos grupos, produção de conhecimentos.

Ao ler e ouvir o que tem sido comunicado como “sala de aula híbrida” é muito difícil encontrar essas definições embasando escolhas… Na definição do Michaelis para híbrido, além das definições da genética e da gramática, encontra-se “que ou o que é composto de elementos distintos ou disparatados”. Talvez seja essa a definição que, no senso comum (e, portanto, equivocada no que temos defendido no Ensino Híbrido), tem sido utilizada para explicar a sala de aula híbrida. Essa “sala de aula híbrida” considera elementos distintos, como os alunos em sala de aula e os alunos em casa, tendo o mesmo tipo de experiência. Nessa “sala de aula híbrida”, equivocadamente, o professor está no centro do processo, pois é ele quem está com o “microfone”, e quem gerencia o caos de reunir “elementos distintos e disparatados”, como alunos em casa e alunos na sala de aula (“caiu minha conexão, vai ficar gravado?”; “se vai ficar gravado, o que viemos fazer aqui?”; “professor(a), olha o que estão escrevendo no chat”). Essa “sala de aula híbrida” defende a ideia equivocada de que a aula expositiva é a melhor forma de aprender (“pessoal, vamos ficar em silêncio senão quem está em casa não consegue me ouvir”, “não dá pra fazer pergunta agora, porque não tem microfone pra todo mundo”).

Considero que auxiliar a comunidade escolar (famílias, especificamente) a compreender que um modelo de aula em que crianças e jovens precisarão (se já não estão) ficar horas e horas na frente das telas “assistindo” à exposição de um professor não é a melhor forma de desenvolvermos habilidades essenciais. Aprender a aprender, aprender a ser, aprender a conviver, aprender a fazer são os quatro pilares da educação da UNESCO e que merecem ser considerados na sala de aula online, híbrida ou presencial. Mudar os meios não pode significar uma mudança tão drástica dos fins…