A sala de aula “híbrida”

Híbrido: mistura de elementos

Muito temos ouvido e lido sobre o desafio do retorno às aulas presenciais. Mesmo sem ter certeza de quando ele ocorrerá em muitos locais, é essencial termos clareza sobre o que significará essa “sala de aula híbrida”, principalmente para fazer valer tudo o que temos estudado, nos últimos anos, sobre a aprendizagem e, em especial, sobre a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) e as competências e habilidades que são cada vez mais necessárias neste nosso século.

Híbrido, na proposta do Ensino Híbrido defendida por alguns autores (BACICH, TANZI NETO, TREVISANI, 2015; HORN e STAKER, 2015; GARRISON e VAUGHAN, 2008), baseia-se na definição do blended learning que considera a complementação entre o ensino online, ou mediado por tecnologias digitais, e o ensino presencial, face a face, de modo a obter o “melhor dos dois mundos”. Não se trata de ter a mesma experiência acontecendo online e presencialmente. Podemos encontrar, na definição de Ensino Híbrido, o estudante no centro do processo, o professor com o papel mediador, a tecnologia como um suporte que possibilita o protagonismo dos estudantes e o desenvolvimento da cultura digital.

No Ensino Híbrido, o estudante está no centro do processo e participa de experiências de aprendizagem onde tem oportunidade de debater, argumentar, desenvolver o pensamento crítico e a resolução de problemas. Essas experiências podem ocorrer no momento online, mas são melhor aproveitadas no momento face a face, olho no olho.

O professor não é o centro do processo no Ensino Híbrido. Ele é aquele que estabelece a mediação entre os estudantes e os objetos de conhecimento, desenhando experiências que podem contar, eventualmente, com a explicação de um conteúdo, mas não é só esse seu papel. Seria muito pouco reduzir a aprendizagem a uma mera exposição de um conteúdo. Professores são profissionais com uma formação que os capacita para oferecer experiências de aprendizagem diversas que envolvem os estudantes com habilidades e competências que precisam desenvolver e não é apenas a aula expositiva que tem essa função.

As tecnologias oferecem oportunidade dos alunos produzirem conhecimentos a partir das experiências que foram desenhadas especificamente para esse ambiente. Eventualmente, pode considerar o digital como um recurso para a exposição de algum conteúdo, mas as tecnologias digitais precisam ir além desse papel, oferecendo também possibilidade de interação e acompanhamento das aprendizagens individuais ou em pequenos grupos, produção de conhecimentos.

Ao ler e ouvir o que tem sido comunicado como “sala de aula híbrida” é muito difícil encontrar essas definições embasando escolhas… Na definição do Michaelis para híbrido, além das definições da genética e da gramática, encontra-se “que ou o que é composto de elementos distintos ou disparatados”. Talvez seja essa a definição que, no senso comum (e, portanto, equivocada no que temos defendido no Ensino Híbrido), tem sido utilizada para explicar a sala de aula híbrida. Essa “sala de aula híbrida” considera elementos distintos, como os alunos em sala de aula e os alunos em casa, tendo o mesmo tipo de experiência. Nessa “sala de aula híbrida”, equivocadamente, o professor está no centro do processo, pois é ele quem está com o “microfone”, e quem gerencia o caos de reunir “elementos distintos e disparatados”, como alunos em casa e alunos na sala de aula (“caiu minha conexão, vai ficar gravado?”; “se vai ficar gravado, o que viemos fazer aqui?”; “professor(a), olha o que estão escrevendo no chat”). Essa “sala de aula híbrida” defende a ideia equivocada de que a aula expositiva é a melhor forma de aprender (“pessoal, vamos ficar em silêncio senão quem está em casa não consegue me ouvir”, “não dá pra fazer pergunta agora, porque não tem microfone pra todo mundo”).

Considero que auxiliar a comunidade escolar (famílias, especificamente) a compreender que um modelo de aula em que crianças e jovens precisarão (se já não estão) ficar horas e horas na frente das telas “assistindo” à exposição de um professor não é a melhor forma de desenvolvermos habilidades essenciais. Aprender a aprender, aprender a ser, aprender a conviver, aprender a fazer são os quatro pilares da educação da UNESCO e que merecem ser considerados na sala de aula online, híbrida ou presencial. Mudar os meios não pode significar uma mudança tão drástica dos fins…

O “híbrido” que temos pela frente

The only way you can predict the future is to build it.

Alan Kay, computer scientist

“A única maneira de prever o futuro é construindo-o”. A citação que abre este texto traz uma reflexão sobre as escolhas a serem feitas no retorno às aulas que considera parte dos estudantes presentes fisicamente nas escolas e parte deles presentes em um ambiente virtual, aprendendo remotamente. Há diferentes escolhas a serem feitas e todas elas oferecem pistas do futuro que se pretende construir em uma instituição, ou na educação como um todo. Vamos refletir sobre isso?

Quando o híbrido apenas considera a junção do online com o presencial

Nesse formato, as aulas no espaço físico da escola e aquelas que acontecem em casa são as mesmas. Ou seja, o professor que está em sala de aula expõe o conteúdo, alunos que estão em casa e na escola acompanham o mesmo conteúdo e têm idealmente a mesma aula, independente do ambiente em que estão. Essa forma de unir presencial e remoto considera o professor no centro do processo, o conteúdo que é exposto também é o foco, e é feita a mesma oferta para todos. A aula ocorre de um pra muitos, considera que todos aprendem no mesmo ritmo e imagina-se que, ao apresentar conteúdos de forma igual a todos, obtém-se o mesmo resultado. Como interagir nesse formato será mais difícil e tomará muito tempo, além das dificuldades de conexão, que nem sempre é a melhor para todos, pode-se chegar a um ponto em que todos que estão na sala de aula física ouvem a aula, em silêncio, para não atrapalhar a transmissão para quem está em casa. Quem está em casa tenta acompanhar a exposição da aula, mesmo que lidando emocionalmente com o fato de não estar em contato com aqueles que estão na sala de aula, e sem poder interromper a explicação. Retomando a citação que abre este texto, o futuro que se constrói é aquele que se baseia em um passado que considera o professor como detentor dos conhecimentos a serem transmitidos para alunos que, como tábulas rasas, terão a oportunidade de receber, ao mesmo tempo, a mesma “instrução”.

Quando o híbrido considera o potencial do online para uma melhor experiência presencial

Nesse formato, o momento online oferece a possibilidade de aprendizagem dos estudantes em diferentes tempos e ritmos, com foco no desenvolvimento de habilidades essenciais, mas oferecendo oportunidades para os estudantes irem além do que é proposto. Projetos ampliam a relação dos estudantes com os conhecimentos e possibilitam a construção em grupos, o desenvolvimento do pensamento crítico, científico e criativo, a aproximação com a cultura digital como caminho para que se aprenda mais e melhor, entre outras possibilidades. Os momentos presenciais, então, são momentos de relação com o humano, com outras pessoas, de forma “desconectada”. Nesses momentos, os estudantes podem viver aquilo que não tiveram a oportunidade de fazer no primeiro semestre: a presença física, a troca de ideias sem ter que ligar a câmera e “desmutar” o microfone, a retomada das relações humanas, respeitados todos os cuidados sanitários. Seminários socráticos, instrução entre pares, resolução de problemas, aprendizagem baseada em perguntas, entre outros modelos podem ser utilizados nos momentos presenciais e valorizar a construção coletiva em grupos menores.

Quais são os desafios?

Sem dúvida, trata-se de uma necessidade de mudança de cultura da comunidade escolar como um todo: professores, estudantes, famílias. Há uma falsa ideia de que a mesma carga horária que foi contratada no início do ano letivo tenha que ser entregue para os estudantes, independente da sobrecarga de tela ou do stress que isso possa ocasionar. Além de conscientizar as famílias, há o desafio da formação dos professores, que já se reinventaram no primeiro semestre, substituindo uma forma de lecionar por outra e que, agora, precisam caminhar em sua curva de aprendizagem para adaptar novos modelos às suas expectativas e necessidades, considerando as expectativas e as necessidades dos estudantes e de suas famílias. Pode parecer, para algumas pessoas, que apoiar-se na exposição de conteúdos facilitará o trabalho docente, mas talvez o stress seja ainda maior, além da constatação de que o impacto nas aprendizagens pode não ser o que se espera. Repensar a avaliação é um outro desafio, pois sabemos o quanto ela indica os resultados do processo e se não for considerada como um elemento fundamental para identificar os avanços, corremos o risco de utilizar formas de medidas que não se relacionam com o processo a ser medido, como se utilizássemos quilogramas para medir distâncias…..

Instituições que têm conseguido mostrar outros formatos de engajar os alunos com as aprendizagens e com produções que impactam no desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e valores, estão participando da construção desse futuro, mesmo que ele avance a passos bem menores, mas que ele não retorne a etapas muito anteriores do que já tínhamos conseguido atingir em 2019.

Fonte das imagens: Pixabay

Para conhecer algumas ações feita por professores, acesse: http://www.triade.me/videoteca

Ensino híbrido: muito mais do que unir aulas presenciais e remotas

classroom-2093744_1920Muito frequente em diferentes publicações, discursos e reflexões, o ensino híbrido tomou grandes proporções como a solução para todos os problemas pós-pandemia… Porém, muito mais do que resolver o problema de unir aulas presenciais, nas instituições de ensino, e aquelas que vão ocorrer no formato remoto, na casa dos estudantes, o ensino híbrido é uma abordagem que está inserida no rol de metodologias ativas. Isso quer dizer que há uma concepção de aluno protagonista, de aulas que valorizam o aprender a aprender, de identificação das necessidades dos estudantes com foco na personalização, que parece ficar em segundo plano quando se trata do tema. Essas concepções requerem um estudo um pouco mais aprofundado e uma reflexão sobre o papel das tecnologias digitais nesse processo. Vamos pensar um pouco sobre isso?

Papel das tecnologias digitais no Ensino Híbrido

Diferente do que foi feito agora, no Ensino Remoto Emergencial, em que as tecnologias digitais, para os alunos que têm acesso a elas, substituíram as aulas presenciais e essas aulas, de forma literal, foram transferidas para o online, no Ensino Híbrido, o papel das tecnologias digitais é outro.

As tecnologias digitais favorecem a personalização, na coleta de dados e na identificação de quem são esses alunos, quais são suas dificuldades e facilidades, e como as experiências de aprendizagem podem melhor atender ao objetivo de desenvolver habilidades e competências. Assim, as tecnologias digitais não têm apenas o papel de levar uma aula expositiva a um grupo de alunos que não está presente na escola. Reforço o que muitos outros pesquisadores têm afirmado nesse momento: se as tecnologias digitais forem utilizadas para reproduzir um sistema de ensino centrado na explicação do professor, não teremos oportunidade de desenvolver pensamento crítico, argumentação, comunicação e colaboração como poderia ser feito se as tecnologias forem bem utilizadas e realmente assumirem importante papel nesse momento. Entender os alunos como prosumers  que consomem, mas também produzem no ambiente digital, é fundamental ao elaborar o desenho do papel das tecnologias digitais nesse momento.

Tecnologias digitais deixam de funcionar como um recurso para entregar conteúdo, entregar aulas expositivas, mas para funcionar como mais um elemento mediador da aprendizagem. Assim, as experiências digitais passam a ser construídas como possibilidades de buscar a personalização da aprendizagem.

Papel do espaço, do educador e dos demais estudantes no momento presencial

O espaço presencial pode, nesse modelo híbrido, facilitar a interação entre as pessoas: esse é o grande benefício do retorno, considerando todos os cuidados sanitários decorrentes desse momento. Mesmo com o distanciamento necessário no presencial, há experiências que podem ser organizadas para que o que foi produzido no momento remoto, por meio das tecnologias digitais, atinja um novo patamar de reflexão sobre conteúdos, procedimentos, valores. Qual seria o motivo de retorno às aulas se não para aproveitar a oportunidade de interagir com outras pessoas? Assim, repensar o papel do educador, dos estudantes, e dos espaços é fundamental!

Para saber mais:

Curso online: Metodologias ativas – intensivo de férias

 

Ensino Híbrido: modelos que podem apoiar a reabertura das escolas

blendedA reabertura das escolas, que cada vez mais torna necessário refletir sobre as tecnologias digitais ainda mais presentes nas rotinas escolares, exige dos educadores e das instituições a análise de diferentes cenários.

Os diferentes cenários podem ser aprofundados a partir de estudos realizados por diferentes instituições, como UNESCO e como o excelente documento veiculado pelo Instituto Unibanco, em que é feita uma compilação sobre diferentes orientações de organismos internacionais.

Neste texto, compartilho algumas possibilidades a partir dos modelos de Ensino Híbrido, sobre os quais me debrucei na organização do livro que co-organizei sobre o tema, mas que não foram tão aprofundados no momento. Nossas reflexões sobre o Ensino Híbrido estavam mais voltadas aos modelos sustentados, aqueles que são possíveis com todos os alunos presentes em sala de aula, e não sobre os disruptivos, que consideram que nem todos os alunos estarão na escola, como o Virtual aprimorado e o A La Carte, como visto na imagem a seguir.

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Como sempre gosto de relembrar, nossa visão de Ensino Híbrido apoia-se na relação que Dewey estabelece entre ensino e aprendizagem. Para o autor, não há ensino sem aprendizagem, ou seja, os dois conceitos estão intimamente relacionados e fazer a opção pela palavra “ensino” considera que a contrapartida é a aprendizagem, uma vez que é o estudante que está no centro do processo, é para possibilitar as aprendizagens dele que as aulas são planejadas. Vamos analisar, então, como esses modelos podem contribuir em um cenário de reabertura parcial das aulas:

Virtual aprimorado: presença na escola com fins específicos

Nesse modelo, os estudantes realizam os estudos sobre todos os componentes curriculares no formato online, e frequentam a escola para sessões presenciais obrigatórias com um professor, uma ou mais vezes por semana. Nesses encontros com o professor, são aprofundadas as discussões sobre aspectos que merecem um aprofundamento, um esclarecimento de dúvidas, ou um acompanhamento para auxiliar nos próximos passos, como uma mentoria personalizada. Veja aqui um vídeo que exemplifica esse modelo em uma realidade, obviamente, muito diferente da nossa.

A diferença entre o que foi ofertado pela maioria de nossas escolas nesse momento de aulas remotas e a proposta do virtual aprimorado é a possibilidade de personalização das aprendizagens. Ou seja, as propostas online por meio de vídeos para explanação de conceitos, textos para leitura sobre diferentes ângulos de cada conceito, possibilitam o desdobramento para que os estudantes se aprofundem nos aspectos que geram, individualmente, maior engajamento. Ampliar os instrumentos de coleta de dados, então, torna-se essencial, principalmente para possibilitar esse acompanhamento personalizado.

Em um cenário mais restritivo, esse modelo funcionaria com horários dos professores dedicados a grupos menores de alunos, que se reuniriam, respeitadas todas as diretrizes sanitárias, para o compartilhamento das aprendizagens essenciais, aquelas que foram selecionadas como imprescindíveis para serem trabalhadas nesse ano letivo (veja as matrizes curriculares, citadas nas referências, com esse exercício de seleção de aprendizagens).

Em um cenário menos restritivo, esse modelo funcionaria com a parcela dos alunos que se encontrariam para a realização de estratégias de compartilhamento em grupos maiores, como debates ou resolução de problemas que aplicam as aprendizagens estudadas previamente no formato individual. Vemos, nesse modelo, uma associação com o modelo de ensino híbrido denominado Sala de Aula invertida. Para que esse modelo faça sentido como personalização das aprendizagens, a coleta de dados é essencial, e os encontros presenciais estão apoiados nessas informações.

À La Carte: grade curricular híbrida

No modelo à la carte, de acordo com a definição dos autores (Horn e Staker, 2015), a aprendizagem de uma disciplina é feita completamente no modelo online e, ainda segundo os autores, é mais eficiente no Ensino Médio, nas disciplinas eletivas. Esse modelo poderia ser adequado, portanto, aos itinerários formativos (que tive a honra de colaborar na redação dos referenciais curriculares). Veja aqui um vídeo sobre esse modelo, em uma realidade, obviamente, muito diferente da nossa.

Em um cenário mais restritivo, especificamente para o Ensino Médio, as disciplinas eletivas poderiam migrar completamente para o formato online, possibilitando um acompanhamento tutorado por parte dos professores, com tutoria ocorrendo no formato online, em videoconferências. As avaliações também ocorreriam nesse formato.

Em um cenário menos restritivo, algumas das disciplinas previamente selecionadas, migrariam para finalizar o ano no formato online, acompanhada de perto pelos professores, em videoconferências para discussão e aprofundamento, mas com a entrega de conteúdos no formato online. As avaliações poderiam ser realizadas, por grupo, em encontros presenciais.

Considerações e reflexões

Nos diferentes cenários que apresentei nesse texto, é importante uma reflexão sobre o papel do online nos planejamentos. Mais do que considerar que as aulas presenciais e as online serão no formato “expositivo”, torna-se relevante estabelecer a função de cada momento.

O online apresenta excelente espaço para o “expositivo”, quando no formato aulas gravadas, as videoaulas. As aulas gravadas (com a atenção de não estarem datadas com comentários do tipo: está frio hoje, por exemplo), podem transformar-se em um repositório de explicações sobre conceitos e podem ser reaproveitadas na recuperação das lacunas que, eventualmente, alguns alunos apresentarão.

O síncrono, quando no online, ou o presencial não devem ser espaço para o expositivo, mas para o contato com o humano, com a troca entre pessoas, com luz para questões tão relevantes como empatia, argumentação, pensamento crítico. Receber conteúdos não deveria ser o foco desse momento, mas a possibilidade de resolver problemas e colocar em ação os aprendizados que foram construídos em uma exposição prévia dão mais sentido ao que denominamos como ensino híbrido, que é mais do que a união do presencial com o online, mas é a possibilidade de personalização de aprendizagens e, tomando Cesar Coll (2019) como referência:

A personalização da aprendizagem é concebida, como um conjunto de estratégias pedagógicas e didáticas orientadas a promover e reforçar o sentido das aprendizagens escolares para os estudantes. […] O ponto não é se devemos ou não avançar para a personalização, mas como fazê-lo.

Talvez, seja esse o nosso momento de pensar em como fazê-lo retomando a discussão de que a inovação será cada vez mais metodológica, e não tecnológica. É isso… Vou adorar saber o que pensa sobre essas reflexões!

Referências interessantes

Matrizes Curriculares: realizei a coordenação da área de Ciências da Natureza na produção das Matrizes dos Anos Finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio na parceria do Instituto Reúna com a Fundação Roberto Marinho.

A personalização da aprendizagem escolar, por Cesar Coll.

HORN, M. B.; STAKER, H. Blended: usando a inovação disruptiva para aprimorar a educação. Porto Alegre: Penso, 2015.

 

 

Recomendações para exposição às telas

imac-1999636_1920Qual o tempo ideal de exposição às telas? Aulas online devem durar a manhã toda, apenas algumas horas, dias alternados?

 

Como lidar com esses momentos de aulas remotas com alunos de anos iniciais? E de anos finais da Educação Básica?

Essas e outras questões têm levado os educadores a refletir muito ao estabelecer suas propostas de trabalho remoto nesse período de educação online. Essas questões têm sido bem recorrentes, tanto por parte de educadores quanto por parte dos pais. Pensando nisso, além de retomar pontos que já comentei em outra publicação como coerência, abrangência e continuidade ao elaborar as experiências online, trago algumas outras reflexões, com base em um documento recente de recomendações para aprendizagem remota elaboradas por equipe da Illinois Sate Board of Education.

tempo de atividades

De acordo com esse tempo proposto, os momentos síncronos, podem ser disparadores de atividades que podem ser desenvolvidas de forma assíncrona, desconectado da tela e voltada para produção de experiências mais concretas, diferentes para cada faixa etária, como já exploramos por aqui, neste blog, em outras postagens. Assim, conforme o estudo, os tempos da tabela incluem o tempo de atenção em atividades que acontecem de forma síncrona ou assíncrona, considerando todo o trabalho do estudante na frente as telas.

Além disso, assim como encontramos em pesquisas voltadas às competências socio-emocionais, sabemos que é importante um olhar para o conteúdo, mas não podemos esquecer de quanto os estudantes e professores estão sobrecarregados nesse processo e, por isso, a ideia de que “menos é mais” vai ficando cada vez mais evidente. Sobrecarregar os estudantes sem ter um plano claro de ação, ou seja, quais são os objetivos de aprendizagem que fazem sentido nesse momento e quais podem ficar pra mais tarde (porque vai ficar tudo bem!!), pode levar à uma falsa impressão de que os alunos aprenderam porque conseguimos transmitir tudo que precisávamos…  Então, vale, sempre que for preciso, parar, dar alguns passos atrás se for necessário, para colocar o barco na rota certa, ou mais próximo dela. Afinal, é novo para todo mundo e, por isso, precisamos estudar, refletir e não ter medo de realizar mudanças, se for preciso. Vamos em frente!!

Para saber mais

CASEL CARES: SEL Resource During COVID-19. Disponível em https://casel.org/covid-resources/

Remote learning recommendations. Disponível em https://www.isbe.net/Documents/RL-Recommendations-3-27-20.pdf

Convidamos você a acompanhar as lives que estão em nosso canal: www.triade.me/videoteca.

 

 

 

 

Webinar: avaliação

Com o objetivo de contribuir com professores e gestores que estão pensando em como transformar os momentos online em experiências de aprendizagem significativas para seus alunos, eu e Leandro Holanda fizemos um encontro online para discutir a avaliação em ambientes virtuais.

Para realizar esse webinar, solicitamos que as pessoas enviassem questões a serem discutidas. Essas questões oferecem um panorama dos principais temas que têm preocupado os professores nesse momento. Para analisar esse panorama, segue nossa análise dos dados coletados:

Dos 476 inscritos, recebemos 122 questões. Os inscritos são professores  e gestores da educação infantil ao ensino superior, em instituições públicas ou privadas. O ponto mais comentado pelo grupo é a preocupação com o formato tradicional de avaliação, que sabemos é o mais frequente nas instituições, e como lidar com estudantes realizando avaliações formais em casa, principalmente para os anos finais do ensino fundamental, ensino médio e superior. Coordenadores e diretores da educação infantil e anos iniciais demonstram preocupação com formatos de verificar a aprendizagem dos estudantes, principalmente o desenvolvimento de habilidades e competências. A utilização de rubricas, que reforçamos em nosso bate-papo, foi comentada por alguns participantes. De maneira geral, percebemos uma preocupação genuína dos participantes em ter um retrato do desenvolvimento dos estudantes nesse período para que possam intervir de maneira mais eficiente no processo.

Buscamos discutir os temas no webinar, acompanhe e espero que seja útil!

[miniatura Youtube] Webinar 1704

 

Avaliação e o ambiente online (2)

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Nos textos anteriores sobre avaliação (confira os anteriores aqui e aqui), compartilhei algumas reflexões sobre a avaliação no ambiente online apoiada em referências que tratam da avaliação em qualquer tipo de ambiente. Agora, especificamente, vou retomar algumas referências para a sala de aula virtual, indicadas ao término desse texto, que consideram experiências de cursos que acontecem no ambiente online.

É evidente a necessidade dos professores considerarem modos eficazes de conduzirem uma aula online, oferecerem espaços de discussões eficazes, além do gerenciamento dos estudantes no ambiente para a oferta de atividades colaborativas e de avaliações online. Além da combinação de momentos síncronos e assíncronos, como já comentado em outro texto, valoriza-se a condução de tutoria por parte dos professores, em horários previamente agendados e de forma síncrona.

Desde 2006, nos Estados Unidos, há oferta de escolas e cursos online na Educação Básica nos 24 estados com diferentes propostas. Porém, diferente do nosso caso atual, há programas que são mistos, ou seja, que contam com momentos online e momentos presenciais, como os modelos flex, a la carte e virtual aprimorado, que podem ser aprofundados nas pesquisas sobre Blended Learning. A iNACOL, atualmente incorporada pelo Aurora Institute, desenvolveu uma série de orientações para as aulas online na educação básica, porém sempre considerando que os estudantes poderiam avançar pelos conteúdos de acordo com seu ritmo, tempo e interesse, caracterizando a aprendizagem personalizada como pano de fundo.

Nesse sentido, buscando estabelecer um contraponto com o que temos, hoje, em nossas instituições, considero que alguns aspectos abordados pela iNACOL merecem ser analisados:

1. Coerência: um sistema de avaliação online coerente deve ter compatibilidade entre o modelo de aprendizagem do aluno e o que é proposto no sistema como instrumento avaliativo. Assim, independente do percurso metodológico escolhido, ter a oportunidade de identificar as aprendizagens dos estudantes durante o processo, apoiando a trajetória deles, oferece coerência ao sistema avaliativo.

2. Abrangência: os alunos precisam de vários formatos diferentes para demonstrar sua aprendizagem, ou seja, variar entre testes, questões dissertativas, avaliação por pares, resolução de problemas, entre outros formatos.

3. Continuidade: avaliações fornecem informações que permitem monitorar e avaliar o progresso ao longo do tempo e, para isso, é preciso ter clareza dos objetivos de aprendizagem que se pretende atingir e quais as evidências de que foram atingidos para que se possa passar para a próxima etapa.

Baseados nesses pontos, Palloff e Pratt (2015) comentam sobre as avaliações na forma de testes já ofertados pelos ambientes virtuais de aprendizagem, e que esse é um dos modelos mais frequentes de avaliação, desde que exista clareza de que essas avaliações podem envolver o que eles chamam de “fraude”, mas que isso não deveria incomodar os docentes, pois sabemos muito bem que uma prova (que, nesse caso, seria) com consulta pode oferecer alta mobilização cognitiva se for bem elaborada. Além delas, as produções dos estudantes que envolvam diferentes linguagens, como textos, vídeos, esquemas, livros digitais, etc, podem garantir a abrangência e a continuidade. Porém, acima de tudo, devem garantir a coerência do processo: não se avalia de forma diferente do que foi oferecido como experiência de aprendizagem.

Referências

Littlefield, Jamie. “State-by-State List of Free Online Public Schools, K–12.” ThoughtCo, Feb. 11, 2020, thoughtco.com/free-online-public-schools-4148138.

PALOFF, Rena M. e PRATT, Keith. Lições da sala de aula virtual: as realidades do ensino online. Porto Alegre: Penso, 2015.

 

Avaliação e o ambiente online

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A avaliação em condições de aulas que acontecem no ambiente online é sempre uma questão que gera uma certa dúvida: qual o melhor formato para avaliar os estudantes? Como garantir o levantamento de evidências que representam os avanços dos estudantes? Em que momento realizar as avaliações? Entre outras dúvidas de pais, estudantes e instituições de ensino. Assim, é importante refletir sobre alguns aspectos:

Concepções de avaliação

Em outro texto já postado neste blog, fiz uma análise sobre a avaliação pensada como um processo, não um fim. A avaliação considerada como processo pressupõe que a construção do conhecimento não é acumulativa e, portanto, não depende apenas da memorização. Quando internalizamos conceitos e os conectamos a uma rede conceitual, lembramos dessa relação entre conceitos não porque houve uma intencionalidade pedagógica para garantir que esses conceitos fossem “armazenados na memória de longo prazo”, mas porque a rede conceitual é de tal forma significativa, que conseguimos acionar essas informações por meio das conexões que são estabelecidas entre esses conceitos e contextos reais. Esse olhar para a avaliação está conectado a experiências de aprendizagem que colocam o estudante no centro do processo e que são potencializadas pelas metodologias ativas. Assim, a avaliação deve estar conectada ao percurso metodológico que foi adotado pela instituição. Esse é um primeiro ponto de atenção.

Como os instrumentos avaliativos fornecem evidências de que os objetivos de aprendizagem foram alcançados?

Uma questão fundamental para refletir sobre a elaboração de avaliações em um ambiente online é pensar sobre como elaborar experiências avaliativas em que os estudantes possam demonstrar o que aprenderam no ambiente online, considerando que essa será a evidência de que os objetivos de aprendizados selecionados foram alcançados.

Elaborar avaliações que possam ser instrumentos para oferecer devolutivas, feedbacks, aos estudantes é uma forma de identificar os aspectos que precisam ser aprofundados ou retomados e, dessa forma, reorganizar seu currículo enquanto ele está sendo colocado em prática, repensando objetivos de aprendizagem e listando novas evidências que se conectem a eles.

Como relacionar esses aspectos com o ambiente online?

Há diferentes formatos que podem ser escolhidos para utilizar a avaliação no ambiente online. De acordo com o percurso metodológico escolhido e os objetivos de aprendizagem elencados, há opções que melhor se adequam. Vamos a algumas delas:

Rubricas: utilizar rubricas é uma forma eficaz de favorecer a reflexão dos estudantes sobre o percurso e de possibilitar devolutivas mais consistentes. Há diferentes formatos de rubrica: a rubrica analítica, a rubrica holística e a rubrica de único ponto. Airasian (2001) reforça a importância de que as rubricas sejam compartilhadas com os estudantes antes deles darem início à tarefa, para que tenham clareza do que se espera deles naquele momento avaliativo. A utilização de rubricas favorece a mentalidade de crescimento, defendida por Dweck (2008). Há várias fontes que podem ser utilizadas para saber mais sobre a construção de rubricas, como o site Rubstar. As rubricas podem ser utilizadas para avaliar diferentes produções dos estudantes, como vídeos, textos, trabalhos em grupos, livros digitais, entre outras propostas.

Portfólios: quando os portfólios oferecem oportunidade de reflexão sobre o percurso de aprendizagem dos estudantes e são construídos pelos estudantes a partir de parâmetros que foram combinados previamente com o professor, ou construídos coletivamente pela turma, seu papel como avaliação formativa é evidente. Os portfólios podem ser elaborados em diferentes formatos, como os exemplos que podem ser vistos nesta postagem.

Para percursos metodológicos que necessitem de ferramentas mais objetivas, outra ideia é utilizar as inúmeras opções para testes de múltipla escolha, como o Quizlet, o Socrative, entre outros recursos que oferecem a resolução de um problema, utilizando o Nearpod , por exemplo, e envolvendo os estudantes em questões que considerem habilidades mais complexas.

O recurso a ser escolhido será aquele que melhor se conecta com  a visão da instituição sobre avaliação. Principalmente nesses tempos em que as aulas migraram para o formato online, não é recomendado reinventar a roda… O quanto mais as propostas de percursos e avaliação estiverem relacionadas com a missão, os valores e o modelo de trabalho da instituição, mais elas repercutirão positivamente junto aos estudantes e suas famílias. A tarefa não é simples, mas pode ser menos árdua se pensarmos simples e com objetivos claros que justifiquem nossas escolhas!

Sugestões:

Continue suas reflexões sobre avaliação no próximo texto.

Para conhecer alguns materiais de apoio, acesse: www.triade.me/materiais-de-apoio

 

Referências

Airasian, P. W. (2001). Classroom assessment: Concepts and applications (4th ed.). Boston: McGraw-Hill

Dweck, C. S. (2008). Mindset: The new psychology of success. Random House Digital, Inc..

Aprendendo com educadores da China

blog

Estamos vivendo, na educação, momentos de muito aprendizado e, também, de certa insegurança e preocupação. Escolas da educação básica, no Brasil, não têm experiência com aulas online e não temos referências de pesquisas com dados sobre o que oferece mais resultados na aprendizagem dos estudantes nessa situação. Já que temos a oportunidade de dar uma olhada no futuro, para aprender com países que já passaram pelo que estamos vivendo, podemos nos inspirar, guardadas as devidas proporções, e encontrar caminhos para acertar mais rápido.

Vamos ver o que podemos aprender com educadores da China. Listei 5 pontos que foram muito evidentes nas minhas pesquisas.

Combinar momentos síncronos com oferta de experiências assíncronas

Oferecer atividades, vídeo-aulas e demais materiais para os estudantes, favorece a realização das propostas no tempo de cada aluno e, assim, dá oportunidade para a personalização. Momentos síncronos, em que todos estão conectados ao mesmo tempo, por sua vez, relata uma professora de uma escola internacional em Pequim, criam a sensação de pertencimento, de comunidade. Essas interações, que podem ocorrer na plataforma que os alunos tenham mais facilidade de interagir, dependendo da faixa etária e dos recursos da instituição, valorizam o contato humano. Uma diretora de escola chinesa comenta que esses encontros nem sempre precisam ser obrigatórios, podem ser opcionais, mas devem existir para auxiliar na manutenção da sensação de pertencimento. Sempre lembro que o distanciamento é físico, não social!

Envolver as famílias

As famílias em quarentena com seus filhos têm, agora, maior oportunidade de discutir com eles os aprendizados do dia, ou da semana. Não se trata de passar aos pais a responsabilidade de atuar como professores, mas de comunicar o que os filhos estão aprendendo, o que foi a eles ofertado nesse período, além de deixar um canal aberto para tranquilizá-los das decisões tomadas pela escola. Esse canal de comunicação, em um momento de fragilidade e impotência, favorece a criação de vínculos mais saudáveis, além de possibilitar um registro da escola sobre o que foi trabalhado no período. São os registros desse “diário de classe”, de forma objetiva, e que pode ser utilizado, futuramente, para relatórios do que foi realizado no período.

Apoio ao professor

Construir um senso de comunidade é muito importante para todos. Tenho participado de muitas reuniões online com grupos de professores e coordenadores e é evidente a importância desse momento para todos. Mais do que um suporte pedagógico, esses momentos, se bem conduzidos, oferecem suporte emocional e são fundamentais para manter o grupo unido! Além disso, o suporte técnico é importante, porque são decisões que nem sempre o professor consegue tomar sozinho. A professora de Pequim comenta sobre celebrações de aniversários online como uma das formas que ela e seu grupo utilizaram para manter o senso de comunidade, para além das discussões profissionais.

Manter rotinas e tarefas simples

Manter rotinas diárias, para alunos e professores, é fundamental para lidar com a incerteza desse momento. As tarefas por sua vez, precisam ser objetivas e garantir engajamento. Ser simples não significa ter menos expectativas, ou trabalhar de forma superficial um objetivo de aprendizagem. Ser simples significa focar naquilo que é necessário e possível de ser realizado nesse contexto. Uma diretora de escola da China comenta que “Pode de ser tentador para os professores atribuir muito trabalho independente. No entanto, os professores devem atribuir tarefas de tamanho reduzido e similares às que eles atribuiriam no campus.” Retomo meu texto anterior: Menos é mais!

Ser otimista e valorizar a vida saudável

Não é fácil, certamente, focar nesses objetivos, mas tanto a diretora como a professora da China advertem para a manutenção de discursos que mostrem aos alunos o quanto podem aprender nesse outro formato, o quanto podem ensinar, também. Manter uma visão otimista e evitar descuidar da alimentação, do sono, de possíveis atividades físicas é, obviamente muito importante. Certamente, não há receita sobre como fazê-lo, mas cada família, quem sabe amparada pelas escolas, pode encontrar maneiras de desafiar-se, como dedicar-se a alguma atividade que sempre teve vontade, ou envolver-se em alguma ação solidária com a comunidade escolar.

Refletir sobre o quanto teremos avançado na educação, tanto com o envolvimento de educadores com o desenho de experiências que envolvem o digital, quanto com a percepção de alguns estudantes sobre o potencial da aprendizagem online e entre pares, além da valorização de uma visão solidária, ética e responsável nos encoraja a entender esse momento como uma fase da qual todos sairemos diferentes. Essa é a única certeza que temos!!!

 

 

Recursos e estratégias para a educação online

Com o objetivo de contribuir com professores e gestores que estão pensando em como transformar os momentos online em experiências de aprendizagem significativas para seus alunos, eu e Leandro Holanda fizemos um encontro online para compartilhar algumas sobre os desafios que todos estamos vivendo neste período.

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Os próximos encontros serão sobre o Ensino Médio, com o Prof José Moran, no dia 26 de março, às 17h, e sobre a Educação Infantil, no dia 31 de março, com a Beatriz Ferraz da Escola de Educadores. Espero vocês por lá!