Na última semana, dia 13 de novembro, uma entrevista que fizeram comigo e foi publicada pela Folha de São Paulo gerou muitos compartilhamentos e mensagens, principalmente por educadoras e educadores, no Instagram. A temática era: o Papel do professor vai mudar, e ele precisa ser mais valorizado (ver imagem da matéria, no final deste texto). Refletindo sobre essas mensagens recebidas e sobre as ações em que tenho me envolvido nos últimos anos, resolvi apresentar algumas reflexões sobre o contexto de valorização docente e, principalmente, trazer exemplos de iniciativas.

Para além do salário e plano de carreira: estratégias de reconhecimento docente de acordo com a literatura
Quando falamos sobre valorização docente, a discussão costuma se concentrar exclusivamente nos aspectos econômicos. É claro que condições salariais justas são essenciais e ninguém discute isso. Mas a literatura educacional mostra, de forma consistente, que o reconhecimento profissional dos professores envolve muitas outras estratégias! Sentir-se respeitado, ouvido e apoiado é igualmente determinante para a permanência e o engajamento na carreira. Levantei algumas pesquisas internacionais sobre o tema, nesta postagem, que pretendo complementar com excelentes pesquisas nacionais, em próxima postagem (espero a contribuição de vocês, com o compartilhamento de artigos que consideram relevantes para a discussão!). Vamos aos achados internacionais:
- Autonomia e a confiança na trajetória profissional: Linda Darling-Hammond (2017) e Andy Hargreaves & Michael Fullan (2012) destacam que essas são dimensões centrais da identidade docente. Quando as escolas incluem professores nas decisões pedagógicas e curriculares, comunicam que sua experiência importa, temos um impacto significativo nas escolhas feitas dentro dos ambientes educacionais e respeitamos o conhecimento e a prática daqueles que estão realmente envolvidos com as atividades docentes.
- Desenvolvimento profissional significativo: pesquisas de Desimone (2009) e Avalos (2011) mostram que professores se sentem valorizados quando recebem formação contínua conectada às suas necessidades reais, em vez de ações pontuais e descontextualizadas, muitas vezes desconectadas daquilo que realmente ocorre em sala de aula. Fazer pesquisa com professores e não para professores faz toda a diferença!
- Comunidades de aprendizagem profissional também aparecem como um forte fator de reconhecimento. Wenger (1998) e Stoll et al. (2006) defendem que a colaboração entre pares cria pertencimento, fortalece práticas e legitima o trabalho docente dentro da cultura escolar, evidenciando que o que serve para uma escola nem sempre é útil para outras.
- Devolutivas construtivas e não punitivas: como sugere Danielson (2007), contribui para que o professor identifique o impacto do seu trabalho.
- Programas de celebração de práticas inspiradoras, mentorias e mostras pedagógicas também ampliam o reconhecimento simbólico, conferindo visibilidade às contribuições de cada docente.
- Por fim, criação de trajetórias de carreira que valorizem a expertise: professor-mentor, líder curricular, formador interno. Estudos de Ingersoll e May (2014) mostram que essas funções aumentam a satisfação profissional e fortalecem o vínculo com a escola.
Reforço que nenhuma forma de reconhecimento se sustenta sem condições de trabalho dignas: tempo real para planejamento, redução da burocracia, apoio socioemocional e infraestrutura adequada. Como ressaltam Day & Gu (2010), sentir-se cuidado pela instituição é uma das experiências mais potentes de valorização docente.
Em síntese, reconhecer professores é um compromisso multifacetado. Exige políticas que combinem aspectos materiais, profissionais e simbólicos. Quando esses elementos se alinham, como mostram estudos internacionais, de Bryk & Schneider (2002) às análises do TALIS (OECD, 2019), as escolas se tornam ambientes onde educadores podem inovar e construir coletivamente a educação que desejamos, como sempre defendeu nosso patrono Paulo Freire.
Com essa postagem, espero compartilhar as iniciativas com as quais estive e estou envolvida e, principalmente, conhecer e dar a oportunidade para que mais iniciativas sejam conhecidas pelas pessoas que me acompanham pelas redes sociais.
Conheça algumas iniciativas:
- Prêmio Nacional Liga STEAM – iniciativa realiza premiação para os docentes que implementam e compartilham suas práticas com estudantes que consideram a abordagem STEAM como fio condutor. https://ligasteam.com.br/premio-2025
- Docentes da rede municipal de Manaus compartilham práticas inspiradoras que são documentadas em ebook. https://www.rfbeditora.com/ebook-2025/276d400b-9f2f-44ce-bc3e-6b7aa73f941b
- Docentes da rede municipal de Manacapuru compartilham e são reconhecidos por práticas docentes inspiradoras. https://www.even3.com.br/ii-seminario-de-praticas-de-ensino-602070/
- Escolas do Futuro de Goiás reconhecem docentes por suas práticas inspiradoras: https://tribunadoplanalto.com.br/escolas-do-futuro-vao-premiar-professores-de-goias/
Referências
Avalos, B. (2011). Teacher professional development in Teaching and Teacher Education over ten years. Teaching and Teacher Education, 27(1), 10–20. https://doi.org/10.1016/j.tate.2010.08.007
Brookhart, S. M. (2012). Teacher feedback: Improving teaching through coaching. Educational Leadership, 70(1), 24–29.
Bryk, A. S., & Schneider, B. (2002). Trust in schools: A core resource for improvement. Russell Sage Foundation.
Danielson, C. (2007). Enhancing professional practice: A framework for teaching (2nd ed.). ASCD.
Darling-Hammond, L. (2017). Teacher education and the American future. Journal of Teacher Education, 61(1–2), 35–47.
Desimone, L. M. (2009). Improving impact studies of teachers’ professional development: Toward better conceptualizations and measures. Educational Researcher, 38(3), 181–199. https://doi.org/10.3102/0013189X08331140
Day, C., & Gu, Q. (2010). The new lives of teachers. Routledge.
Hargreaves, A., & Fullan, M. (2012). Professional capital: Transforming teaching in every school. Teachers College Press.
Ingersoll, R. M., Merrill, E., & May, H. (2014). What are the effects of teacher education and teacher leadership? CPRE Research Reports,. https://cpre.org/sites/default/files/researchreport/2018_prepeffects2014.pdf
OECD. (2019). TALIS 2018 results: Teachers and school leaders as lifelong learners (Vol. 1). OECD Publishing. https://www.oecd.org/en/publications/talis-2018-results-volume-i_1d0bc92a-en.html
OECD. (2020). Education at a glance 2020: OECD indicators. OECD Publishing. https://www.oecd.org/en/publications/education-at-a-glance-2020_69096873-en.html
Podolsky, A., Kini, T., Bishop, J., & Darling-Hammond, L. (2016). Solving the teacher shortage: How to attract and retain excellent educators. Learning Policy Institute.
Sahlberg, P. (2011). Finnish lessons: What can the world learn from educational change in Finland? Teachers College Press.
Stoll, L., Bolam, R., McMahon, A., Wallace, M., & Thomas, S. (2006). Professional learning communities: A review of the literature. Journal of Educational Change, 7, 221–258.
Wenger, E. (1999). Communities of practice: Learning, meaning, and identity. Cambridge University Press.
York-Barr, J., & Duke, K. (2004). What do we know about teacher leadership? Findings from two decades of scholarship. Review of Educational Research, 74(3), 255–316. https://doi.org/10.3102/00346543074003255







