Professor e identidade docente

Compartilho a resenha de um texto de 1996, de Bernadete Gatti. Vinte anos se passaram e o texto continua tão atual…

GATTI, Bernardete A. Os professores e suas identidades: o desvelamento da heterogeneidade. Cadernos de Pesquisa, nº 98, 1996, 85-90.

A análise da profissão docente e da identidade desse professor é apresentada nesse trabalho. Diversos fatores são apresentados como causa das transformações sofridas pela profissão: de um lado a necessidade da sociedade caracterizada pela demanda de uma qualidade escolar que contemple a heterogeneidade populacional e, de outro, a ausência de priorização política-econômica da educação. O trabalho do professor, de certa forma, realimenta essa sociedade, pois é fruto da formação e das experiências pelas quais esse profissional passou.

A questão da identidade do professor, com um modo próprio de ser e estar no mundo, é pouco trabalhada em nossa sociedade, apesar de permear o trabalho docente. As pesquisas e as políticas de intervenção ignoram esse aspecto, apesar de ser central por afetar as perspectivas do professor perante sua formação e sua atuação profissional, além de ser fruto das interações sociais e expressão sociopsicológica que interage nas aprendizagens e nas ações humanas.

As pesquisas realizadas não oferecem uma visão completa sobre a pessoa e a identidade socioprofissional do professor, entretanto, algumas informações são encontradas em trabalhos realizados no início dos anos 90:

  • Professores e alunos são tratados como um conglomerado homogêneo, apesar de comportar grupos com diferenças significativas: a feminização da profissão e seu impacto, por exemplo, são fatores que não podem ser ignorados. O nível socioeconômico dessas professoras e a perspectiva de ascensão social pela instrução são critérios que apresentam variadas interpretações, porém o exercício do magistério, para todas, é uma via de saída da vida privada, além de, em alguns casos, garantir a manutenção da família.
  • Assim como os fatores que motivam o profissional, os fatores que levam à desmotivação das docentes em exercício também são heterogêneos: frustração devida aos baixos salários, a desvalorização docente, as exigências e a exaustão. Contraditoriamente, muitas apresentam satisfeitas e realizadas profissionalmente em diversos aspectos, fato que demonstra “o vivido não pode ser tomado linearmente e simplificado em slogans.”(p.86).
  • A escolha pelo magistério é atribuída tanto às expectativas sociais depositadas na escola, como local onde ocorre o ensino, quanto à fatores externos: facilidade, disponibilidade ou, ainda, ao acaso. Essas questões merecem atenção pois, além de favorecerem a compreensão sobre o profissional e sobre o magistério, fornece informações sobre os modos de envolvimento dos professores com seus alunos e com a educação.
  • A imagem social que esses profissionais têm de si mesmos também é contraditória: por um lado, exaltam o quanto sentem-se gratificados pelo exercício de sua profissão, principalmente em relação às crianças e pais, mas, por outro lado, sentem-se desvalorizadas pelos baixos salários, desrespeitadas pelas autoridades educacionais e por parte dos alunos. Essas questões apresentam diferentes aspectos, parecendo estar ligadas às questões socioculturais da comunidade atendida.
  • Especificamente em pesquisas realizadas com uma parcela representativa de professoras da rede pública, a escolha da profissão apresenta-se associada a diversos fatores, principalmente circunstanciais e relacionadas ao mercado de trabalho. Quando se confronta a escolha com a questão da promoção/retenção dos alunos observa-se que, independente da situação social, o discurso das professoras é muito semelhante: é atribuída ao próprio aluno, ou à sua família, a responsabilidade pelo seu insucesso escolar.  O que parece ser uma representação social que domina as atitudes e as opiniões dos profissionais docentes de nosso país.

 

Esses fatos demonstram o efeito da particulariedade, helleriana, sobre  as formas de agir e pensar desses professores. Estamos imersos na cotidianiedade e, apesar de particulares, fazemos parte de um todo e como ele nos manifestamos, participando, ao mesmo tempo da genericidade e da particulariedade. Sujeitos, estamos, portanto, às cristalizações, que nos aliena e favorece que ajamos baseados em juízos provisórios que não podem ser utilizados como guias, pois podemos ser aprisionados por nossos preconceitos. A possibilidade de analisar as professoras sob essa ótica, compreendendo assim seus modos de ser e de agir, pode favorecer interlocuções e ações mais objetivas e menos idealizadas.

O professor, portanto, apresenta uma identidade pessoal e social que deve ser compreendida e respeitada. Essa identidade não é dada, mas é construída nas relações sociais e, portanto, o professor deve ser percebido como participante de um contexto que nele atua e que por ele é influenciado. Imerso em um processo, sendo que em contínua transformação, o profissional e, consequentemente sua identidade, é a representação de realidades heterogêneas e singulares, dependendo de cristalizações para garantir a mutação constante: “A identidade contradiz a condição humana de vivenciar contradições por meio de incertezas incertas.”(p.88).

A ação do professor revela sua identidade, mas, pelos aspectos acima expostos, não é possível homogeneizar as diferenças mas, contraditoriamente, se isso não for feito, há dificuldade em atingir uma reflexão que permita atuar. Fatores como a formação dos professores, o contexto em que atuam, influenciam, de acordo com estudos realizados, a formação de seus preconceitos, convicções e, portanto, participam do desenvolvimento da identidade desses profissionais. Entretanto, não são analisadas as implicações de sua identidade profissional em sua história de vida e de formação.

Os professores, portanto, identificam-se a partir de seu trabalho de ensinar, ou seja, ensinam objetivando metas e agindo de acordo com o significado que construíram em relação aos conhecimentos e às pessoas, numa dada história situada temporal e geograficamente. Portanto, ao continuarmos com os mesmos métodos de formação de professores, sem que estes repensem seu modo de ser e de agir em sociedade, analisando sua identidade pessoal e profissional, não atingiremos transformações reais no ensino. As pesquisas científicas, portanto, também devem ser repensadas para que não repitam o que já foi dito, através de afirmações genéricas que, muitas vezes, fundamentam argumentos e regras de procedimentos.

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