WebQuest: como organizar uma atividade significativa de pesquisa

question-mark-1872665_1920Certamente, quem está envolvido com o tema da educação online já deve ter ouvido falar das WebQuests. São recursos que, no meu ponto de vista, podem ser utilizados nos tempos atuais e podem estimular um envolvimento dos estudantes com um tema de estudo. As WebQuests eram tema do meu doutorado, antes do meu envolvimento com o Blended learning e, compartilho aqui, algumas pesquisas que eu havia feito sobre o tema e que podem auxiliar uma reflexão sobre melhores caminhos e adaptações a serem feitas atualmente.

Começo apresentando algumas WebQuests que elaborei:

Aprendizagem Baseada em Projetos

Metodologias Ativas – teorias da aprendizagem

Biodiversidade

WebQuest  é um formato de aula orientada em que todos os recursos utilizados para resolver uma tarefa são provenientes da Web. A proposta, desenvolvida por Bernie Dodge, em 1995, nos primórdios do uso escolar da Web, trouxe possibilidades para desenvolver o aprendizado de conteúdos de forma orientada. March (2004) afirma que as WebQuest não são novidades no ambiente pedagógico, mas podem ser interessantes à medida que utilizam, de forma planejada e desafiadora, recursos da Web, inevitáveis em salas de aula do século XXI.

Uma WebQuest é um recurso online elaborado para o desenvolvimento de um projeto de pesquisa. Esse projeto pode ser criado pelo professor de uma determinada disciplina, pode ser interdisciplinar, ou, ainda, ser utilizado por um grupo de alunos, sob a orientação de um professor .  O objetivo deste projeto de pesquisa é resolver uma tarefa, suficientemente desafiadora para despertar nos estudantes a necessidade de solucioná-la, utilizando-se, para isso, de recursos disponíveis na Web. Esses recursos são apresentados na própria WebQuest por meio de links que direcionam os estudantes para as páginas que contribuem para a solução do problema. A resposta ao problema, porém, depende de dois fatores: a análise das informações presentes nas páginas sugeridas para consulta, que atuam como um tipo de scaffolding (andaimes), e a mobilização dos membros do grupo em busca de um resultado para a tarefa.

São itens fundamentais de uma WebQuest: uma introdução sobre o tema a ser estudado, funcionando como um “pano de fundo” para a proposta; uma tarefa desafiadora; as fontes de informação necessárias para a execução da tarefa, incluindo a Web e seus recursos; a descrição do processo, claramente organizado em passos que orientem o trabalho dos estudantes, porém que possibilitem a reflexão e a tomada de decisões; uma orientação sobre como organizar a informação adquirida e uma conclusão que apresente aos estudantes o que eles aprenderam e os encorajem a utilizar a pesquisa em outros domínios do conhecimento (DODGE, 1995).

Ao elaborar tarefas desafiadoras, pensar no envolvimento dos membros do grupo é fundamental. Os participantes podem ter papéis para que, ao exercerem funções específicas, tornem-se co-responsáveis pela solução do problema, interagindo e buscando soluções em comum acordo com todos os envolvidos. Mais do que uma busca pela resposta a um problema, há uma construção coletiva de conhecimentos.

Vamos falar um pouco mais sobre alguns dos elementos de uma WebQuest?

Os elementos que compõem uma WebQuest são organizados de forma a possibilitar uma aproximação gradativa do estudante com o objeto de estudo. As WebQuests têm a seguinte forma de organização: introdução, tarefa, processo e recursos, avaliação e conclusão.

1. Introdução

Trata-se do momento de aproximação do estudante com o objeto de estudo. A Introdução deve despertar a curiosidade sobre o tema da WebQuest. Por se tratar de um primeiro contato, não deve ser muito extensa, para que não antecipe detalhes do que será tratado nas próximas etapas. Trechos de vídeos podem ser um recurso interessante para a aproximação com o tema de pesquisa.

2. Tarefa

A tarefa é o principal desafio de uma WebQuest. Tem como principal objetivo motivar o estudante para a pesquisa, além de possibilitar um engajamento real entre o grupo. Baseia-se em uma situação-problema que deve ser resolvida pelo grupo e deve ter um objetivo claro. Segundo Dodge, a tarefa deve ser “factível e interessante” (1995). O papel dos participantes na resolução da tarefa deve ser claro, e o autor apresenta uma classificação para as tarefas, resumida no quadro abaixo.

Tabela 1 – Alguns tipos de tarefas de uma WebQuest, características e exemplos.

Tipo de tarefa Características Exemplo
Tarefa de recontar

(Retelling task)

 

 

São tarefas bem simples em que, após apresentado o conteúdo, os estudantes devem recontá-lo para que seja possível perceber se o conteúdo foi compreendido. Utilizar uma apresentação, como um Power-point ou Prezi é uma forma de recontar esse conteúdo.

Porém, para ser considerada uma WebQuest, o conteúdo não deve ser meramente reproduzido. Copiar e colar não faz parte desta proposta e o aluno deve ter um objetivo claro que demonstre a necessidade de recontar esse conteúdo. Habilidades de resumir, reorganizar, elaborar devem ser contempladas. A tarefa pode ser uma das etapas para a resolução de uma tarefa mais abrangente.

“Você irá preparar um relatório multimídia que irá explicar sobre a história, geografia, cultura ou arte do povo Maori. Cada grupo terá perguntas e tarefas específicas a serem executadas.”

Tarefa proposta em WebQuest sobre os Maoris, tribo indígena da Nova Zelândia.

Tarefa de compilação

(Compilation task)

Nesta tarefa, os estudantes devem levantar informações provenientes de diferentes sites, selecionar, avaliar e elaborar um produto final utilizando as informações compiladas. “A chave para a sua felicidade está ao seu alcance. Muitas pessoas tomam decisões de carreira com base em vários fatores: valores pessoais, interesses, dinheiro. […] Escolher uma carreira é uma tarefa importante em que as pessoas tendem a permanecer por toda a vida. […] Você vai identificar um ou vários campos de carreira que são mais propensos a trazer-lhe a felicidade.”

Tarefa proposta em WebQuest sobre profissões: A look into my future.

Tarefa de mistério

(Mistery task)

Principalmente no Ensino Fundamental, tarefas que envolvem mistério ou enigmas são bem aceitas pelos estudantes. Neste tipo de tarefa, não é suficiente elaborar um quebra-cabeça que pode ser respondido recolhendo informações em uma única página da Web. É necessário que as informações, provenientes de diferentes fontes, possam ser articuladas, comparadas, sintetizadas e, assim, utilizadas para resolver o enigma proposto. “Sua equipe deve ganhar o máximo de conhecimento sobre o Rei Tut e as circunstâncias de sua morte. Sua equipe é composta por um médico legista, um repórter, um arqueólogo, um professor de história, e um historiador (opcional). Cada membro da equipe vai visitar um site e responder às seguintes perguntas:[…]”

Tarefa proposta em WebQuest sobre a morte do rei Tutancamon.

Adaptado de Dodge, 1995.

3. Processo: envolve o passo a passo. O que se espera que o grupo de estudantes realize nessa investigação proposta e como podemos orientar sua organização, bem como a divisão de papéis do grupo. Para um processo com utilização da Web, é o momento de fazer uma boa curadoria de sites, ou de como encontrar bons sites, para que o processo seja realmente mobilizador de novas aprendizagens e não, simplesmente, um “copia e cola” de informações.

4. Avaliação: aqui, pode ser utilizada uma rubrica holística ou uma rubrica analítica. Leia aqui no blog outro texto que escrevi sobre avaliação e que pode auxiliar nessa escolha.

5. Conclusão: esse é o momento de valorizar o processo de pesquisa e, quem sabe, dar dicas para um aprofundamento sobre o tema. É a hora de parabenizar o grupo pelo que fizeram até então.

6. Créditos: informe quem elaborou a webquest, indique créditos de imagens, deixei um contato para quem quiser saber mais sobre seu processo. Identifique-se!

March (2004), entretanto, alerta que nem toda atividade de pesquisa que utilize a Web como fonte pode ser considerada uma WebQuest. Ter uma tarefa desafiadora é fundamental, porque reproduzir, sem reflexão, aquilo que é encontrado na Web não significa resolver uma WebQuest. Em diversas áreas do conhecimento, trata-se de um recurso que, entre outros aspectos, “promove o desenvolvimento do aprendizado crítico, a co-construção de conhecimento, a reflexão sobre o que foi aprendido e a transferência para outros domínios da vida acadêmica e pessoal” (DIAS, 2010, p.361)

Possibilitar “andaimes”, estruturas de suporte que garantam uma aproximação com o conhecimento, é o cerne do trabalho que utiliza a WebQuest como recurso pedagógico. O termo scaffolding foi originalmente cunhado por Wood, Bruner e Ross (1976) e faz referência ao processo que possibilita à criança, ou ao novato, resolver um problema com a ajuda de um adulto, que irá controlar os elementos de uma tarefa que está aquém das capacidades do aprendiz. O processo de scaffolding, em primeiro lugar, contempla o ato de envolver o aprendiz com a tarefa, reduzir as etapas de sua resolução, por meio de uma orientação adequada. Manutenção da direção é o próximo passo, direcionando o aprendiz para a resolução, oferecendo informações relevantes sobre o melhor caminho a seguir, diminuindo a frustração, pois o tutor está ao lado do aprendiz e, finalmente, oferecendo um modelo de imitação quando necessário. Recursos como as WebQuests são mais uma forma de possibilitar ações de scaffolding no processo de construção de conhecimentos.

Analisando esse aspecto, algumas pesquisas apontam a eficácia do uso de WebQuests que possibilitam ações de scaffolding no ensino. Chen e Hsiao (2010), em pesquisa realizada com estudantes da área de música, de Taiwan, identificaram a eficácia do uso das WebQuests uma vez que o grupo experimental diferenciou-se do grupo controle na resolução da mesma tarefa. Os alunos do grupo experimental, que utilizaram a metodologia da WebQuest, mostraram maior integração e demonstraram melhores resultados em etapas que envolviam o pensamento independente em comparação com os estudantes do grupo controle. Martínez (2012) realizou um estudo em que a metodologia da WebQuest foi utilizada na Educação Infantil e percebeu que, apesar de ser necessário um maior acompanhamento, quando comparado com a autonomia manifestada por estudantes do Ensino Superior, é possível alcançar bons resultados ao utilizar este recurso com alunos desta fase de ensino. Segers et al (2010) em seu estudo com estudantes holandeses do 4º, 5º e 6º ano, identificaram a importância das WebQuests como forma de orientar os estudos; apesar dos estudantes já utilizarem a Internet em seu dia a dia, se orientados por meio da metodologia da WebQuest associada à atividades âncora desenvolvidas pelos professores para as diferentes turmas, observa-se um ganho na compreensão leitora, principalmente na compreensão de relações significativas entre as frases. Os autores reforçam, entretanto, a importância do papel do professor, ao encaminhar o processo de aprendizagem, infrutífero se depender apenas do uso das TICs no dia a dia, sem a orientação adequada.

No processo de formação de professores, Azevedo, Puggian e Friedman (2012) utilizaram um site para elaborar e hospedar a WebQuest desenvolvida por professores de matemática e perceberam que a utilização do site possibilita uma melhor inserção dos professores no uso das TICs, uma vez que, possivelmente, ao utilizar o site, o foco passa a ser o desenvolvimento da proposta e não os recursos para sua montagem.

Observa-se, assim, interesse pela utilização deste recurso, principalmente em projetos de pesquisa para todos os segmentos. Alunos de Educação Infantil ao Ensino Superior podem fazer uso de WebQuests, desde que devidamente planejadas.

Para construir sua webquest, você pode usar vários recursos. Vejam algumas dicas:

  • Use um mural do Padlet no formato de prateleiras para postar suas etapas e peça que os grupos, nos comentários, poste as respostas da etapa Processo.
  • Crie um site no Google sites, e abra abas para cada item da WebQuest.
  • Crie um Sway e organize os passos da Webquest em uma estrutura de storytelling.
  • Use um Powerpoint com links, salve em pdf e compartilhe por Email ou WhatsApp com seus alunos.

Tem mais alguma ideia? Adoraríamos conhecer: compartilhe nos comentários!

Referências

AZEVEDO, Marcos Cruz de; PUGGIAN, Cleonice; FRIEDMAN, Clícia Valladares Peixoto. O site construtor WebQuest Fácil e os resultados de uma pesquisa-ensino mediada por tecnologias da informação e comunicação.Revista Uniabeu, v. 5, n. 11, p. 294-305, 2012.

CHEN, Farn-Shing; HSIAO, Yu-Wen. Using WebQuest as a creative teaching tool at a science and technology university in Taiwan. World Transactions on Engineering and Technology Education–WIETE, v. 8, n. 2, p. 203-206, 2010.

DIAS, Reinildes. WebQuests no processo de aprendizagem de L2 no meio on-line. In: MENEZES, Vera L. (org.). Interação e aprendizagem em ambiente virtual. Belo Horizonte: FALE-POSLIN-UFMG, 2010. p.359-394.

DODGE, Bernie. WebQuests: A Technique for Internet – Based Learning. The Distance Educator, v.1, n 2, 1995.

MARCH, Tom. The learning power of WebQuests. Educational Leadership, v. 61, n. 4, p. 42-47, 2004.

MARTÍNEZ, Rosa Mª Goig. El uso de la webquest como recurso didáctico innovador en el 2º ciclo de educación infantil. Revista Electrónica de Investigación y Docencia (REID), n. 7, 2012.

SEGERS, Eliane, DROOP, Mienke and VERHOEVEN, Ludo. Integrating a WebQuest in the Primary School Curriculum Using Anchored Instruction. CORELL: Computer Resources for Language Learning 3, 65-74. 2010.

WOOD, David; BRUNER, Jerome S.; ROSS, Gail. The role of tutoring in problem solving. Journal of child psychology and psychiatry, v. 17, n. 2, p. 89-100, 1976.

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