Aprendendo com educadores da China

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Estamos vivendo, na educação, momentos de muito aprendizado e, também, de certa insegurança e preocupação. Escolas da educação básica, no Brasil, não têm experiência com aulas online e não temos referências de pesquisas com dados sobre o que oferece mais resultados na aprendizagem dos estudantes nessa situação. Já que temos a oportunidade de dar uma olhada no futuro, para aprender com países que já passaram pelo que estamos vivendo, podemos nos inspirar, guardadas as devidas proporções, e encontrar caminhos para acertar mais rápido.

Vamos ver o que podemos aprender com educadores da China. Listei 5 pontos que foram muito evidentes nas minhas pesquisas.

Combinar momentos síncronos com oferta de experiências assíncronas

Oferecer atividades, vídeo-aulas e demais materiais para os estudantes, favorece a realização das propostas no tempo de cada aluno e, assim, dá oportunidade para a personalização. Momentos síncronos, em que todos estão conectados ao mesmo tempo, por sua vez, relata uma professora de uma escola internacional em Pequim, criam a sensação de pertencimento, de comunidade. Essas interações, que podem ocorrer na plataforma que os alunos tenham mais facilidade de interagir, dependendo da faixa etária e dos recursos da instituição, valorizam o contato humano. Uma diretora de escola chinesa comenta que esses encontros nem sempre precisam ser obrigatórios, podem ser opcionais, mas devem existir para auxiliar na manutenção da sensação de pertencimento. Sempre lembro que o distanciamento é físico, não social!

Envolver as famílias

As famílias em quarentena com seus filhos têm, agora, maior oportunidade de discutir com eles os aprendizados do dia, ou da semana. Não se trata de passar aos pais a responsabilidade de atuar como professores, mas de comunicar o que os filhos estão aprendendo, o que foi a eles ofertado nesse período, além de deixar um canal aberto para tranquilizá-los das decisões tomadas pela escola. Esse canal de comunicação, em um momento de fragilidade e impotência, favorece a criação de vínculos mais saudáveis, além de possibilitar um registro da escola sobre o que foi trabalhado no período. São os registros desse “diário de classe”, de forma objetiva, e que pode ser utilizado, futuramente, para relatórios do que foi realizado no período.

Apoio ao professor

Construir um senso de comunidade é muito importante para todos. Tenho participado de muitas reuniões online com grupos de professores e coordenadores e é evidente a importância desse momento para todos. Mais do que um suporte pedagógico, esses momentos, se bem conduzidos, oferecem suporte emocional e são fundamentais para manter o grupo unido! Além disso, o suporte técnico é importante, porque são decisões que nem sempre o professor consegue tomar sozinho. A professora de Pequim comenta sobre celebrações de aniversários online como uma das formas que ela e seu grupo utilizaram para manter o senso de comunidade, para além das discussões profissionais.

Manter rotinas e tarefas simples

Manter rotinas diárias, para alunos e professores, é fundamental para lidar com a incerteza desse momento. As tarefas por sua vez, precisam ser objetivas e garantir engajamento. Ser simples não significa ter menos expectativas, ou trabalhar de forma superficial um objetivo de aprendizagem. Ser simples significa focar naquilo que é necessário e possível de ser realizado nesse contexto. Uma diretora de escola da China comenta que “Pode de ser tentador para os professores atribuir muito trabalho independente. No entanto, os professores devem atribuir tarefas de tamanho reduzido e similares às que eles atribuiriam no campus.” Retomo meu texto anterior: Menos é mais!

Ser otimista e valorizar a vida saudável

Não é fácil, certamente, focar nesses objetivos, mas tanto a diretora como a professora da China advertem para a manutenção de discursos que mostrem aos alunos o quanto podem aprender nesse outro formato, o quanto podem ensinar, também. Manter uma visão otimista e evitar descuidar da alimentação, do sono, de possíveis atividades físicas é, obviamente muito importante. Certamente, não há receita sobre como fazê-lo, mas cada família, quem sabe amparada pelas escolas, pode encontrar maneiras de desafiar-se, como dedicar-se a alguma atividade que sempre teve vontade, ou envolver-se em alguma ação solidária com a comunidade escolar.

Refletir sobre o quanto teremos avançado na educação, tanto com o envolvimento de educadores com o desenho de experiências que envolvem o digital, quanto com a percepção de alguns estudantes sobre o potencial da aprendizagem online e entre pares, além da valorização de uma visão solidária, ética e responsável nos encoraja a entender esse momento como uma fase da qual todos sairemos diferentes. Essa é a única certeza que temos!!!

 

 

Publicado por Lilian Bacich

Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano (USP), Mestre em Educação (PUC), Pedagoga (USP) e Bióloga (Mackenzie), professora de Ensino Fundamental, Ensino Médio. Coordenadora de curso de Pós-graduação em Metodologias ativas no Instituto Singularidades. Organizadora dos livros: Ensino Híbrido: personalização e tecnologia na educação; Metodologias ativas para uma educação inovadora. Cofundadora da Tríade Educacional. www.triade.me Contato: bacichlilian@gmail.com

4 comentários em “Aprendendo com educadores da China

  1. Ótimo texto e muito esclarecedor. No Brasil somos muito levados por polarizações, o que só faz atrapalhar o nosso crescimento em muitas áreas, inclusive na educação. De repente nos vemos em uma situação que exige de nós, docentes, aprender novas metodologias, mas devido a algumas medidas equivocadas, perdemos muito tempo com discussões, que às vezes não contribui. Levando seu texto para o debate na minha escola. Grata.

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