Metodologias ativas: autores de referência 2

Nessa série de postagens, a ideia é relacionar elementos das metodologias ativas embasados nos pressupostos teóricos de autores de referência, distanciar dos modismos e apoiar solidamente princípios que não são novidades na educação, mas que já vêm sendo discutidos por muitos pesquisadores e que nos auxiliam na tomada de decisões. Vamos lá, então!

John Dewey (1859-1952)

Há muito temos defendido, nas discussões sobre metodologias ativas, sobre a construção de “experiências de aprendizagem”. É impossível falar dessa temática sem fazer referência à John Dewey ( 1859 – 1952), um dos filósofos americanos mais importantes do século XX, expoente da Escola Nova e que tem em seus textos uma importante reflexão sobre educação democrática e seu potencial na construção de uma sociedade. Muitos termos fundamentais utilizados até hoje, principalmente ao seu considerar a inovação na educação, remetem aos estudos e pesquisas de Dewey. Vamos dar início, nesse texto, com o termo “propósito”, como apresentado no texto anterior.

Um propósito é um fim em vista, isto é, envolve previsão das consequências que resultam de ação por impulso. Previsão das consequências envolve a operação da inteligência. (…) A formação de propósitos é, portanto, operação intelectual mais complexa do que poderia parecer.

DEWEY, 1938

O autor alerta, portanto, que o papel do professor é apoiar na construção de propósitos (poderíamos até pensar em uma relação com os inéditos viáveis de Freire) a partir de necessidades geradas por impulsos, mas que só se transformariam em ação a partir da “observação inteligente, de busca de informações e de julgamento lúcido”. Nesse sentido, o autor alerta para algo que muito defendemos em experiências de aprendizagem com foco em metodologias ativas que é o papel do professor na condução, no planejamento das ações a serem desenvolvidas pelos estudantes. Protagonismo do estudante, estudante no centro do processo, desenvolvimento da autonomia não significa que cada um fará o que quer, quando quer e como quer sem que tenha o apoio de um par mais experiente que, na educação escolar, é o professor. Também não significa que o passo a passo desenhado pelo educador será de tal forma engessado que todos os estudantes caminharão no mesmo tempo, ritmo e percurso. O equilíbrio entre a condução das experiências de aprendizagem de forma colaborativa, contextualizada e alinhada com as necessidades da ação que se pretende promover e que estejam conectadas ao propósito é fundamental para o desenvolvimento de competências e habilidades.

Assim, o autor reforça a importância da “continuidade da experiência”, diferenciando a experiência “de valor educativo” da experiência “sem valor”. A experiência de valor educativo se conecta com experiências anteriores e se articula com experiências futuras, tornando a aprendizagem um entrelaçamento em que o “passado” é meio para compreender o “presente” e desenhar o “futuro” no estabelecimento de propósitos.

A experiência sem valor, por sua vez, é aquela interessante, divertida, mas que não promove a aprendizagem. Nesse sentido, há contraposição entre experiências pontuais, como o uso de um recurso digital (um jogo, uma nuvem de palavras, uma enquete) descontextualizado daquilo que se pretende desenvolver e o efetivo uso de um recurso que promove a ação, a reflexão e a construção de conceitos (que é o que se defende nas metodologias ativas). Infelizmente, com as experiências “sem valor” perde-se a oportunidade educativa, defende-se que houve uso de metodologias ativas (sendo que se tratou de uma prática isolada) e toda uma reflexão sobre uma educação que promove o desenvolvimento do estudante pode ser desacreditada…

O interessante de estabelecer relação entre as reflexões desses autores (entrelaçar o passado) com o que observamos hoje na educação (entender o presente) nos ajuda a pensar os melhores caminhos (desenhar o futuro) para evitar equívocos e o desmerecimento de propostas que muito se conectam com os estudantes de hoje e que poderiam ser melhor exploradas (experienciadas!) no dia a dia das escolas.

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Publicado por Lilian Bacich

Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano (USP), Mestre em Educação (PUC), Pedagoga (USP) e Bióloga (Mackenzie), professora de Ensino Fundamental, Ensino Médio. Coordenadora de curso de Pós-graduação em Metodologias ativas no Instituto Singularidades. Organizadora dos livros: Ensino Híbrido: personalização e tecnologia na educação; Metodologias ativas para uma educação inovadora. Cofundadora da Tríade Educacional. www.triade.me Contato: bacichlilian@gmail.com

3 comentários em “Metodologias ativas: autores de referência 2

  1. Oi, Lilian!

    Sempre tenho feito essa reflexão sobre o propósito dentro da perspectiva do desenvolvimento de Metodologias Ativas. Na escola onde trabalho faço a mentoria e assessoria dos professores, desde a elaboração do planejamento até a culminância das aulas e projetos. Gosto das reflexões de Ausubel sobre a aprendizagem significativa e Rubem Alves sobre a temática da valorização da experiência. Acredito que tudo o que conhecemos hoje vem das contribuições desses grandes nomes e muito ainda temos pela frente. Seu texto me conectou com muitas leituras e reforça a importância do propósito, do objetivo e da intencionalidade dentros das Metodologias Ativas.

    Um grande abraço,
    Profa. Yasmin Thuanny

  2. Show, Lilian! Reflexões importantes e necessárias! Especialmente no que diz respeito às “experiências sem valor”. Não basta inserir uma prática isolada (ainda que a intenção seja muito boa e que o envolvimento dos alunos, ali, seja interessante)… mas penso que estamos no caminho…

  3. Super importante ancorar novas reflexões e concepções com grandes pensadores do passado. Também relevante é o estudo aprofundado das novas metodologias para que possamos oferecer reais experiências de valor, pois caso contrário torna-se apenas uma aplicação de modismo sem nenhum valor e fundamento. Obrigada por mais este compartilhamento.

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