Em abril de 2026, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicou os resultados do Teacher Knowledge Survey (TKS), um estudo internacional voltado à compreensão dos conhecimentos pedagógicos dos professores.

O relatório representa um avanço importante ao propor indicadores comparáveis entre diferentes países e recoloca em evidência uma discussão que acompanha a pesquisa educacional há décadas: afinal, quais conhecimentos são essenciais para o exercício da docência?
A resposta depende, em grande medida, da forma como compreendemos a profissão docente.
O TKS concentra sua análise no General Pedagogical Knowledge (GPK), ou Conhecimento Pedagógico Geral. Esse domínio reúne saberes relacionados ao ensino e à aprendizagem que podem ser mobilizados independentemente do componente curricular. Fazem parte conhecimentos sobre avaliação, gestão da sala de aula, motivação dos estudantes, aprendizagem colaborativa, planejamento, desenvolvimento humano e inclusão. São conhecimentos fundamentais para qualquer professor e constituem uma base comum da profissionalidade docente.
Essa escolha metodológica da OCDE merece destaque. Avaliar o GPK torna possível comparar professores de diferentes áreas do conhecimento e de diversos sistemas educacionais por meio de um mesmo instrumento. Em pesquisas internacionais de larga escala, essa padronização é indispensável para produzir evidências confiáveis e orientar políticas públicas.
Entretanto, a própria prática docente revela que ensinar envolve mais do que dominar princípios gerais de pedagogia.
Desde os trabalhos de Lee Shulman (1986; 1987), a pesquisa em educação reconhece a importância do Pedagogical Content Knowledge (PCK), ou Conhecimento Pedagógico do Conteúdo. O PCK corresponde à capacidade de transformar um conteúdo específico em experiências de aprendizagem compreensíveis para os estudantes. Envolve conhecer as dificuldades conceituais mais frequentes, selecionar representações adequadas, antecipar equívocos, propor exemplos significativos e escolher estratégias didáticas coerentes com a natureza daquele conhecimento.
Essa distinção ajuda a compreender situações comuns nas escolas. Dois professores podem demonstrar excelente domínio de avaliação formativa, organizar ambientes colaborativos e promover um clima positivo de aprendizagem. Ainda assim, um deles consegue favorecer a compreensão de conceitos científicos complexos, enquanto o outro encontra dificuldades para tornar esses mesmos conceitos acessíveis aos estudantes. A diferença, muitas vezes, está justamente no desenvolvimento do PCK.
Sob essa perspectiva, o relatório da OCDE não substitui a reflexão trazida por Shulman. Ele delimita seu objeto de investigação. O estudo procura compreender uma dimensão do conhecimento profissional docente que pode ser analisada de maneira comparável entre países, sem a pretensão de abarcar toda a complexidade da docência.
Essa delimitação também oferece pistas importantes para pensar programas de formação de professores.
Em processos formativos iniciais ou continuados, o desenvolvimento do GPK constitui um eixo estruturante. Conhecimentos relacionados à avaliação para a aprendizagem, ao planejamento, à mediação pedagógica, à aprendizagem ativa e à gestão de sala de aula beneficiam professores de todas as áreas e fortalecem a qualidade do trabalho pedagógico nas escolas.
Ao mesmo tempo, formações centradas exclusivamente nesses aspectos tendem a apresentar limites quando o objetivo é transformar efetivamente as práticas de ensino. A implementação de currículos contemporâneos, o ensino por investigação, a abordagem STEAM, a educação científica ou a resolução de problemas exigem que os professores desenvolvam conhecimentos profundamente articulados aos conteúdos que ensinam.
É justamente nesse ponto que o PCK assume papel central.
Ao planejar uma formação em Ciências, por exemplo, discutir avaliação formativa ou metodologias ativas é importante, mas insuficiente. Os professores também precisam analisar as concepções alternativas dos estudantes, compreender quais modelos favorecem a aprendizagem de determinados conceitos, discutir sequências didáticas específicas e compartilhar evidências produzidas em sala de aula. O mesmo raciocínio vale para Matemática, Língua Portuguesa, História ou qualquer outro componente curricular.
Talvez uma das principais contribuições do relatório da OCDE seja evidenciar que diferentes dimensões do conhecimento docente cumprem funções distintas. O GPK oferece uma base comum para compreender princípios pedagógicos compartilhados por toda a profissão. O PCK aproxima esses princípios da realidade concreta do ensino de cada área do conhecimento, permitindo que o conhecimento científico seja transformado em aprendizagem significativa.
Em vez de escolher entre uma ou outra perspectiva, parece mais produtivo compreendê-las como dimensões complementares da formação docente. Programas que articulam conhecimentos pedagógicos gerais com oportunidades de aprofundamento no ensino dos conteúdos específicos tendem a produzir mudanças mais consistentes na prática profissional.
Essa integração torna-se ainda mais relevante diante dos desafios atuais da educação. A promoção do pensamento crítico, da investigação, da interdisciplinaridade e da aprendizagem baseada em projetos demanda professores capazes de mobilizar princípios pedagógicos sólidos e, ao mesmo tempo, compreender profundamente como seus estudantes aprendem conceitos específicos.
O debate proposto pela OCDE amplia as possibilidades de investigação sobre a profissionalidade docente e oferece evidências relevantes para políticas públicas. Ao mesmo tempo, reafirma a importância de manter o diálogo com as pesquisas de Shulman, lembrando que ensinar continua sendo uma atividade intelectual complexa, na qual pedagogia e conhecimento do conteúdo permanecem indissociáveis.

Para saber mais
OECD. Results from the Teacher Knowledge Survey: What Teachers Know About General Pedagogy. Paris: OECD Publishing, 2026. Disponível em: https://www.oecd.org/en/publications/results-from-the-teacher-knowledge-survey_5542e88a-en/full-report.html. Acesso em 26/07/2026
SHULMAN, L. S. Those who understand: Knowledge growth in teaching. Educational Researcher, v. 15, n. 2, p. 4–14, 1986.
SHULMAN, L. S. Knowledge and teaching: Foundations of the new reform. Harvard Educational Review, v. 57, n. 1, p. 1–22, 1987.
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