Metodologias ativas: desafios e possibilidades

A adaptação deste texto foi publicada em: BACICH, Lilian. Revista Pátio, nº 81, fev/abr, 2017, p. 37-39. Disponível em: https://loja.grupoa.com.br/revista-patio/artigo/13063/desafios-e-possibilidades-deintegracao-das-tecnologias-digitais.aspx

O desafio que encontramos, hoje, de acordo com o que identificamos em algumas pesquisas nacionais e internacionais, é que, apesar das instituições de ensino implementarem as tecnologias digitais em sua rotina, adotando computadores, tablets e outros equipamentos, ainda têm dificuldade em modificar as formas de lidar com o planejamento das aulas. Acabam fazendo uma transposição das aulas “tradicionais” para o modelo online e valorizando a exposição do conteúdo “de um para muitos” ou utilizando as tecnologias digitais como recurso que fica apenas nas mãos do professor, enriquecendo as aulas, mas não modificando a cultura escolar. Uma excelente infraestrutura, portanto, não é o suficiente: a mudança da cultura escolar não ocorre do dia para a noite e requer espaço de experimentação e de reflexão do grupo para que surta efeito.

O estudo sobre o uso das tecnologias digitais no processo ensino-aprendizagem não é recente na educação. Desde o final do século passado, com a introdução do uso dos computadores na escola, diversos estudos têm sido realizados com o objetivo de identificar estratégias e consequências dessa utilização. O envolvimento das instituições de ensino, professores e demais profissionais da educação nesse processo de implementação das tecnologias digitais é considerado um desafio e discussões sobre o tema são recorrentes em diferentes instâncias. Dentre as diferentes propostas de implementação do uso das tecnologias digitais no processo ensino-aprendizagem, as vantagens da implementação de propostas envolvendo Metodologias Ativas são apresentadas neste texto.

Em entrevistas compiladas por Gvirtz e Necuzzi (2011), alguns especialistas apresentam reflexões quanto às tecnologias digitais na educação. Inês Dussel, pesquisadora do Departamento de Investigações Educativas do México, afirma que o mais importante neste momento de “irrupção de novas tecnologias na escola é refletir sobre as consequências dessas mudanças na cultura e nas formas de conhecimento que as novas tecnologias permitem desenvolver na escola” (p.41) e, por isso, o debate deve estar centrado no que se entende por conteúdos escolares, conhecimento e cultura. Deve ficar claro, afirma a pesquisadora, que a tecnologia não permite um acesso direto ao conhecimento, mas um acesso mediado pelo docente ou, até mesmo, pelo programa que possibilitou esse acesso. E, afirma, “creio que a escola e os docentes têm que formular perguntas às tecnologias que elas nunca irão se perguntar por si mesmas” (p.41). Mariona Grane, pesquisadora da Universidade de Barcelona, reforçando a necessidade de tecnologias digitais serem cada vez mais conectadas à realidade escolar, por meio de um replanejamento de ações e na formação dos professores, afirma “Ser educado hoje em um entorno escolar desconectado da vida cotidiana é frustrante para qualquer aluno ou aluna” (p.72). Jenkins, autor de A cultura da convergência (2006), afirma que as ferramentas por si só não estabelecem muitas mudanças; apesar de expandir nossas capacidades de pesquisa e comunicação, não possibilitam, sozinhas, novas capacidades de criar e de compartilhar. Juana M. Sancho Gil, catedrática da Universidade de Barcelona, em sua entrevista nessa mesma compilação, demonstra concordar com o afirmado por Jenkins e afirma que o que faz a mudança são as novas atitudes do professor que, ao planejar aulas que utilizam novas ferramentas, modifica sua maneira de ver as relações entre aprender e ensinar e, principalmente, modifica a forma como ele se situa frente aos alunos. Há uma intenção do professor em buscar um currículo mais integrado, não tão orientado para a reprodução, mas voltado para a compreensão, criação, considerando o aluno autor e não repetidor. Para a pesquisadora, os docentes devem aprender fazendo (learning by doing), deve-se trabalhar com os professores a partir do que sabem e não do que não sabem, de seus medos. Não adianta ensinar o uso da ferramenta descontextualizado, mas de ensinar-lhes uma lógica diferente de compreender a informação. Percebe-se, dessa forma, uma preocupação com a formação do professor para o uso das tecnologias digitais em suas aulas e verificamos que as pesquisas nesta área reforçam essa necessidade (GUERRERO & KALMAN, 2010; PRENSKY, 2010). Nessa perspectiva, propostas de integração das metodologias ativas, sempre que possível apoiadas em tecnologias digitais, configura-se como forma de oferecer diferentes experiências de aprendizagem aos estudantes e, portanto, têm sido consideradas estratégias adequadas para lidar com esses desafios.

 

METODOLOGIAS ATIVAS NA EDUCAÇÃO

As Metodologias ativas, ao se apresentarem como estratégias de potencializar as ações de ensino e aprendizagem por meio do envolvimento dos estudantes como atores do processo e não apenas como espectadores, têm se configurado como formas de convergência de diferentes modelos de aprendizagem, incluindo, dessa forma, as tecnologias digitais para promover as ações de ensino e de aprendizagem, envolvendo um conjunto muito mais rico de estratégias ou dimensões de aprendizagem. Ao enfatizarmos a importância da inserção de metodologias ativas nas instituições de ensino reforçamos que a urgência desse processo é a reflexão de que não existe uma forma única de aprender e que a aprendizagem é um processo contínuo em que todos os envolvidos no processo devem ser considerados como peças ativas!

A aprendizagem baseada em projetos é um exemplo de metodologia ativa e envolve a resolução de problemas que façam sentido para os estudantes e nesse percurso, eles devem lidar com questões interdisciplinares, tomar decisões e trabalhar em equipe. A aula invertida, que é um dos modelos de rotação (BACICH, TANZI NETO E TREVISANI, 2015) também é uma metodologia ativa em que os espaços de ensino-aprendizagem podem envolver pequenos grupos de discussões, atividades escritas e leituras, possibilitando ao aluno a busca de novas fontes de conhecimento fora do seu contexto escolar. Além da sala de aula invertida, o modelo de rotações envolve as seguintes propostas: Rotação por Estações, na qual os estudantes realizam diferentes atividades, em estações, no espaço da sala de aula. O Laboratório Rotacional, onde os estudantes usam o espaço da sala de aula e laboratórios e a Rotação Individual. Pensamento crítico, criatividade e colaboração são essenciais nesse processo!

As estratégias metodológicas a serem utilizadas no planejamento das aulas são recursos importantes ao estimularem a reflexão sobre outras questões essenciais, como a relevância da utilização das tecnologias digitais para favorecer o engajamento dos alunos e as possibilidades de personalização na educação. É certo que as pessoas não aprendem da mesma forma, no mesmo ritmo e ao mesmo tempo. O ensino considerado “tradicional” muitas vezes torna todo o grupo homogêneo e supõe que o tempo, o ritmo e a forma de aprender são iguais para todos. Ao utilizar diferentes estratégias de condução da aula, aliadas com propostas on-line, as metas de aprendizagem dos alunos podem ser mais facilmente atingidas e momentos de personalização do ensino podem ser identificados.

A utilização de metodologias ativas de forma integrada ao currículo requer uma reflexão sobre alguns componentes fundamentais desse processo: o papel do professor e dos estudantes em uma proposta de condução da atividade didática que se distancia do modelo considerado tradicional; o papel formativo da avaliação e a contribuição das tecnologias digitais; a organização do espaço, que requer uma nova configuração para o uso colaborativo e integrado das tecnologias digitais; o papel da gestão escolar e a influência da cultura escolar nesse processo. O papel desempenhado pelo professor e pelos alunos sofre alterações em relação à proposta de ensino tradicional e as configurações das aulas favorecem momentos de interação, colaboração e envolvimento com as tecnologias digitais.

 

A formação de professores para as metodologias ativas

Na reflexão sobre a formação continuada ou inicial de professores para o uso de metodologias ativas, pensar a melhor forma de implementação das diferentes propostas na realidade brasileira é um dos maiores desafios, mesmo por que, não há uma realidade brasileira, mas várias realidades. Encontramos escolas brasileiras em que as tecnologias digitais estão presentes de forma intensa, com certa obrigatoriedade de uso por parte dos docentes, há, ainda, escolas em que as tecnologias digitais estão presentes e seu uso é facultativo, também podemos encontrar escolas em que não há tecnologias digitais, mas há entusiastas em seu uso e, ainda, escolas em que não há qualquer indício da presença ou do uso de tecnologias digitais. Nessas muitas realidades, é possível pensar em metodologias ativas desde que seja desenhada uma forma sustentada de implementação, não como uma forma puramente disruptiva em relação ao modelo de ensino considerado “tradicional”, mas caminhando em direção a essa possibilidade (HORN e STAKER, 2015). Uma forma sustentada de atuação envolve ações como incentivar a utilização de metodologias ativas em diferentes momentos, de forma equilibrada, contextualizada e, principalmente, bem planejada. Mesmo sabendo que o planejamento norteia a ação do professor e não é um limitador, ter aulas bem planejadas é um suporte muito importante. A mudança de toda uma cultura escolar não pode ser feita subitamente e, em uma abordagem sustentada, ou incremental, é possível avançar para que, em determinado momento, seja possível oferecer algo novo como proposto em uma abordagem que realmente promova uma ruptura com o ensino “tradicional”. Nesse aspecto, o envolvimento das equipes da escola é fundamental. Algumas ações estão sob controle do professor que inicia a mudança em sua sala de aula. Gradativamente, desperta o interesse de outros professores da escola, que podem se envolver com a proposta e, nesse caso, é essencial o envolvimento da equipe de gestão da escola, aprovando essas modificações e avaliando o impacto dessas mudanças nas ações de ensino-aprendizagem e na instituição como um todo.

A pesquisa-ação, a experimentação e a possibilidade de troca entre os demais professores tem papel importante nessa formação. O registro por meio de uma filmagem, que pode ser feita utilizando-se de um celular, da própria atuação em sala de aula, o pensar sobre ela e, depois, a oportunidade de discuti-la com os pares ou com a equipe de gestão configura-se como rico momento de aprendizado.

Nesses momentos de análise do material produzido e selecionado pelo professor é possível confrontar-se com a imagem de seu trabalho e refletir ainda mais sobre ela. Segundo Clot (2006, p.136), “a tarefa apresentada aos sujeitos consiste em elucidar para o outro e para si mesmo as questões que surgem durante o desenvolvimento das atividades com as imagens” o que, ainda segundo o autor, opera uma modificação na percepção da atividade realizada, possibilitando que ações do plano interpsicológico, por meio do diálogo com o outro, manifestem-se no plano intrapsicológico, no momento em que o sujeito, ao analisar suas ações e verbalizar sobre as condutas observadas, identifica condições de realizá-las da mesma forma ou, na maioria dos casos, de uma forma aprimorada na próxima vez.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

De maneira geral, o fato de o professor modificar as estratégias de condução da aula pode funcionar como disparador de reflexões sobre as relações de ensino e aprendizagem que se estabelecem em sala de aula e, consequentemente, como instrumento de análise e replanejamento de sua prática. O que é possível observar, como já pontuamos em publicações anteriores é que

“Crianças e jovens estão cada vez mais conectados às tecnologias digitais, configurando-se com uma geração que estabelece novas relações com o conhecimento que, portanto, requer que transformações aconteçam na escola” (BACICH, TANZI NETO, TREVISANI, 2015, p. 47).

Deve ficar claro, contudo, que toda a aprendizagem é ativa, uma vez que, para aprender é necessário algum tipo de mobilização cognitiva para que o novo conhecimento seja inserido em uma rede, modificando ou complementando aquilo que já se sabe sobre um determinado tema.  Entretanto, precisamos pensar na integração das tecnologias digitais de forma criativa, crítica e que possam ser usadas em todo o seu potencial, oportunizando aos alunos um ensino mais personalizado, significativo e colaborativo.

 

Referências

BACICH; TANZI NETO; TREVISANI. Ensino Híbrido: Personalização e Tecnologia na Educação. Porto Alegre: Penso, 2015.

CLOT, Y. A função psicológica do Trabalho. Petrópolis: Vozes, 2006.

GUERRERO, I & KALMAN, J. La inserción de la tecnología en el aula: estabilidad y procesos instituyentes en la práctica docente. Revista Brasileira de Educação, 15(44), maio/ago, 2010.

GVIRTZ, S. & NECUZZI, C. Educación y tecnologias: las voces de los expertos.Caba: anses, 2011.

HORN, Michael B. e STAKER. Blended: usando a inovação disruptive para aprimorar a educação. Porto Alegre: Penso, 2015.

PRENSKY, M. O papel da tecnologia no ensino e na sala de aula. Conjectura, Caxias do Sul, v. 15, n. 2, maio/ago, 2010. p.201-204.

Um comentário em “Metodologias ativas: desafios e possibilidades

  1. Ótima reflexão sobre o processo de ensino/aprendizagem e dos desafios que perpassam por está sociedade dita do conhecimento.

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